Realismo capitalista: a próxima parada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet
É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
O sentimento disseminado de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, sendo impossível imaginar uma alternativa a ele.
— Mark Fisher
Eu acho que foi em algum post do Cory Doctorow onde li pela primeira vez a pedrada “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, uma daquelas frases que são óbvias quando se lê — mas que nunca fui capaz de pensar por conta própria. Doctorow disse que a tinha ouvido de Mark Fisher, crítico cultural britânico, e, mais tarde, descobri que é a espinha dorsal do livro Realismo capitalista, que me foi indicado por tanta gente que precisa ser a próxima parada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet.
Na hora que li a frase, minha cabeça foi imediatamente para todos os filmes e séries pós-apocalípticos que tomaram a cultura pop neste início de século — de The Walking Dead a Sweet Tooth e até Mad Max — onde o mundo ruiu, acabou tudo, acabou até a esperança… mas a propriedade privada e o patrão seguem existindo.
O próprio Fisher não reivindica a invenção da frase. Já no primeiro capítulo, ele dá o crédito a Fredric Jameson e Slavoj Žižek. O que é dele é o nome que deu ao sentimento por trás dela, o título do livro, e o trabalho de mostrar como esse sentimento está nas coisas mais banais do dia a dia.
Mas nem só de zumbi vive o realismo capitalista. Ele também aparece sem muita cara de fim do mundo, e é justamente aí que Fisher passa a maior parte do livro, caçando o sintoma em lugares onde ninguém pensaria em procurar. No capítulo 6, por exemplo, vamos parar em Como enlouquecer seu chefe, comédia de 1999 dirigida por Mike Judge. Num restaurante de rede, tipo Outback, a garçonete Joanna (Jennifer Aniston) precisa usar no mínimo 15 “enfeites” (flair, no original) no uniforme, broches e bottons, para “demonstrar individualidade e criatividade”. Ela usa 15 e recebe um feedback do gerente, porque um colega usa 37 e quem entrega o mínimo está entregando pouco. Quando pergunta por que ele simplesmente não define o mínimo em 37, ouve que a ideia era ela querer expressar mais a própria individualidade. 🤷♂
O sistema em que vivemos transforma até nossa personalidade em item de avaliação de desempenho, e Joanna não consegue reclamar sem parecer que o problema é ela.
Mark Fisher nasceu em 1968 numa região operária da Inglaterra, e uma derrota serviu como formação de caráter. Em 1985, os mineiros voltaram ao trabalho depois de mais de um ano de greve com o sindicato desmoralizado, um dia que ele dizia não conseguir lembrar sem lágrimas nos olhos trinta anos depois. Sua formação veio de uma combinação improvável, a BBC de uma época em que o Estado britânico bancava rádio e televisão sem medo de assunto difícil e a imprensa musical independente, que juntas faziam o que ele chamava de “sistema educacional suplementar”. Foi nas páginas da New Musical Express que ele esbarrou pela primeira vez na obra de Jacques Derrida e Jean Baudrillard — pois é, uma revista semanal de crítica de discos, vendida em banca para adolescentes, citava filósofo francês para explicar uma banda pós-punk.
Passou pela universidade, fez doutorado e, nos anos 2000, estava dando aula de Educação Continuada para adolescentes de dezesseis a dezenove anos da classe trabalhadora enquanto mantinha um blog chamado K-punk, que o crítico musical Simon Reynolds descreveu como “uma revista de um homem só melhor que a maioria das publicações do Reino Unido”. Tirou a própria vida em janeiro de 2017, aos 48 anos, após décadas convivendo com a depressão sobre a qual escreveu abertamente.
Realismo capitalista saiu no Reino Unido em 2009, pela Zer0 Books, um selo pequeno e estreante que o próprio Fisher ajudou a fundar. Eram 80 páginas no original, sem notas de rodapé nem bibliografia, e sem sequer indicar as referências dos textos citados. É um livro que se lê como um blog porque nasceu de um, em capítulos curtos e autocontidos que pulam de Franz Kafka para o programa Supernanny e de Baruch Espinosa para a sala de aula onde o autor trabalhava. As dez mil cópias da primeira tiragem acabaram no bolso dos manifestantes dos protestos estudantis britânicos de 2010, e o livro virou uma espécie de manifesto não oficial de uma geração inteira.
A edição brasileira só chegou em 2020, pela Autonomia Literária, e é bem mais grossa que a original. Aos nove capítulos, ela soma quatro textos que Fisher escreveu depois, já com a austeridade britânica em curso: “Não prestar para nada”, em que ele conta a própria história com a depressão, “Como matar um zumbi”, sobre como derrubar um neoliberalismo que já estava desmoralizado e seguia governando, “Não falhar melhor” e “Ninguém está entediado, tudo é entediante”. E fecha com um posfácio longo de Victor Marques (professor de filosofia na UFABC e editor da Jacobin Brasil) e Rodrigo Gonsalves (psicanalista e professor), que reconstroem a trajetória de Fisher e discutem o que essas ideias fazem por aqui. A tradução é do próprio Gonsalves com Jorge Adeodato e Maikel da Silveira. Somando tudo, o que temos aqui é o livro de 2009 mais a década que veio depois.

Depois de olhar como decidimos com Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein, de questionar nossas certezas com Adam Grant e de encarar a sociedade do espetáculo com Guy Debord, agora vamos com Fisher para a burocracia que cresce em nome da eficiência, para o adoecimento mental tratado como desequilíbrio químico individual em vez de sintoma social, e para uma cultura presa em reciclar o próprio passado.
Em 2020, o diretor Bong Joon-ho contou que se surpreendeu com como seu filme Parasita teve reação parecida em lugares muito diferentes do mundo, e explicou: “vivemos todos no mesmo país agora, o do capitalismo”. É desse país que o livro fala.
Começamos dia 7 de agosto e seguimos com Mark Fisher durante o resto do mês.
Como funciona o clube
Para quem está chegando agora, toda sexta-feira eu publico resumos comentados dos capítulos da semana — as ideias do livro ao lado do que pensei enquanto lia, além de conexões com outras coisas que já falamos aqui no Boa Noite Internet e o que está acontecendo no mundo. Quem não conseguiu ler os capítulos não precisa ficar de fora, pode focar no resumo. Depois disso vem a melhor parte, nos comentários, onde nem mesmo precisamos concordar com ele (já aconteceu).
O Clube de Cultura é exclusivo para apoiadores do Boa Noite Internet. Se você ainda não faz parte, este pode ser o momento. Apoiando agora, você tem acesso a todas as discussões anteriores: Resista: não faça nada (Jenny Odell), Quatro mil semanas (Oliver Burkeman), Nexus (Yuval Noah Harari), A crise da narração (Byung-Chul Han), Nação dopamina (Anna Lembke), Religião para ateus (Alain de Botton), Amusing ourselves to death (Neil Postman), Não aguento mais não aguentar mais (Anne Helen Petersen), Inspiração (Matt Richtel), A sociedade do espetáculo (Guy Debord), O poder do hábito (Charles Duhigg), Pense de novo (Adam Grant) e Ruído (Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein).
Entre um livro e outro, o clube também fez algumas edições especiais, de uma tacada só: como lidar com Neil Gaiman quando o artista desaba e a obra fica, Andor e o que uma série de Star Wars diz sobre quem a gente é, a anatomia do true crime e o público que ele encontrou, e Paterson e o direito de estar bem.
Nos vemos semana que vem?
crisdias



