📽️ Paterson e o direito de estar bem
Edição especial do Clube de Cultura do Boa Noite Internet
O rigor da beleza é o alvo da busca. Mas como se poderá encontrar a beleza se ela está encerrada na mente?
— William Carlos Williams
No finalzinho da temporada passada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet, sobre O poder do hábito, de Charles Duhigg, comentei feliz que é mais um livro que cita a história Isto é água de David Foster Wallace, parte de um daqueles tradicionais discursos de formatura que o autor deu no Kenyon College em 2005.
Dois peixes jovens nadam juntos, encontram um peixe mais velho que diz “Bom dia, rapazes. Como está a água?” — e um olha para o outro e pergunta “Água? O que é água?”.
Amanhã, dia 21 de fevereiro, é meu aniversário. E também de Wallace,1 um fato que acabou criando uma relação curiosa entre nós. Com o tempo, passei a gostar muito do trabalho dele, mas provavelmente saber que nascemos no mesmo dia me dá uma sensação de conexão maior — mesmo eu sendo o cara que não acredita em nada, muito menos neste tipo de coisa.
Durante as férias, em alguma praia tranquila de Alagoas, depois de ler dois livros muito bons, Messias de Duna e Sonhos de trem, decidi retomar a obra-prima de DFW, Graça infinita, um livro que tem características opostas aos outros dois.
Messias de Duna fala da história das pessoas mais poderosas da galáxia, lideradas por um imperador implacável que consegue ver o futuro — e como ele (não) lida com isso. Já Sonhos de trem é o oposto porque tem 88 páginas, enquanto Graça infinita tem pra lá de duas mil páginas. Onde não acontece “nada”. E é por isso mesmo que esse vai ser meu livro do ano (no sentido literal de passar o ano lendo).
Como diria o chatgpt: em um mundo cada vez mais conectado… Em um mundo onde espera-se que usemos IA para gerar mais conteúdo, e certos políticos nos empurram para o conflito e divisão, tudo precisa ser épico, tudo precisa ter valor, tudo precisa ter utilidade, até os relacionamentos. E tudo precisa ser útil para mim. Se o seu vídeo não me ensina nada que eu possa usar na prática, bom, desculpe, ele não vai bombar. (Spoiler: este deve ser o tema do primeiro ensaio do Boa Noite Internet este ano, quem beber, verá).
Já li mais de 200 páginas de Graça infinita (ou seja, ao mesmo tempo não li nada ainda, mas também é o tamanho de muito romance por aí). Até agora não “aconteceu nada”. Uma dezena de personagens aparece nas páginas, é um mundo igual ao nosso, mas diferente — os anos não são numerados, têm naming rights vendidos para patrocinadores — e há algum tipo de movimento separatista… eu sei lá. Não importa.
Mas não é um livro chato, é o contrário disso. Um dos motivos de ser tão grande é que Wallace leva ao extremo a máxima da escrita de “não mostre, diga”. Em vez de dizer “o personagem teve um pesadelo de que algo o estava espreitando no dormitório e acordou suado de desespero”, ele nos coloca dentro da cabeça daquele adolescente vasculhando o quarto com sua lanterna, tendo certeza de que alguma coisa está escondida.
Ou, no segundo capítulo do livro, quando ele mostra um personagem tendo um ataque de ansiedade. Já falei desse trecho por aqui em 2024, lê lá, vai. É provavelmente o capítulo mais bem escrito que eu já li na vida.
Eu costumo dizer que existem dois tipos de escritores. Gente como Haruki Murakami me faz pensar: “eu quero ser escritor que nem esse cara”. Já DFW é do segundo tipo: nem fodendo que um dia eu vou conseguir escrever bem assim, melhor desistir. Especialmente porque ele não aborda coisas épicas nem sobrenaturais. Ele fala de uma vida quase sem graça… mas boa. Wallace é crítico, mas otimista. O que torna o fim da sua história bem triste. Em 2008, ele tirou sua própria vida, provavelmente por problemas de adaptação a antidepressivos — encarnando o mítico gênio atormentado, uma pessoa que desvenda o mundo e não consegue lidar com o que descobre.
Paterson, Paterson, Paterson
De vez em quando, eu penso em Paterson, filme de 2016 escrito e dirigido por Jim Jarmusch, bancado pela Amazon Studios, mas que no momento não está disponível em nenhum streaming no Brasil. Há meses penso em fazer esta edição do Clube sobre o filme.
Adam Driver é Paterson, um motorista de ônibus (um driver? ahn? sacou?piscadinha) da cidade de Paterson, Nova Jersei. Uma cidade tão “qualquer” que o dono do bar local tem um pedaço de parede dedicado a pessoas famosas da cidade que não é lá tão grande assim e precisa às vezes flexibilizar as regras do que vale como “figura Patersoniana”.
Paterson tem uma vida normal, rotineira. Ele acorda todo dia sem despertador, beija afetuosamente a companheira, Laura (Golshifteh Farahani), pega sua roupa que já está na cadeira ao lado da cama, come cereal com leite, caminha até a garagem de ônibus, trabalha na mesma rota, almoça no parque da cidade com vista para uma cachoeira, volta para casa, janta com Laura, leva o cachorro dela para passear, para em um bar, toma uma unidade de cerveja, conversa com alguém aqui e ali, volta para casa e reinicia o dia.





