Em decisões no mundo real, a quantidade de ruído com frequência é escandalosamente alta.
Ouvimos muito as pessoas falando sobre viés. Eu mesmo sou fascinado pelo assunto e costumo dizer que o meu viés cognitivo favorito é “todo mundo cai em viés, menos eu”. Tem também o viés algorítmico, onde ele sempre nos mostra o que é bom primeiro para a plataforma, só depois pensa no nosso lado. É a palavra do momento (mentira, ninguém está nem aí, mas nós estamos). Só que existe outro tipo de erro, igualmente grave, que quase ninguém menciona. Pelo menos é o que este livro quer mostrar.
Ruído é o nome que Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein dão à variabilidade que aparece onde deveria haver consistência. Viés é um erro sistemático, que puxa julgamentos sempre para o mesmo lado, já o ruído é a pura dispersão. É quando profissionais que deveriam concordar chegam a conclusões muito diferentes diante do mesmo caso.
Infelizmente, muitas organizações são atormentadas tanto pelo viés como pelo ruído.
O capítulo usa a metáfora de uma galeria de tiro com espingarda, mas se você acompanhou aqui meu “melhor de 2025”, viu que sou mais analógico e pratico desde o fim do ano passado o arco e flecha. Mas, enfim. Quatro equipes num estande de tiro, cinco tiros cada. A equipe A acerta o centro, já a equipe B erra sempre para o mesmo lado — isso é viés. A equipe C espalha tiros pelo alvo inteiro — isso é ruído. Finalmente, a equipe D faz os dois: erra para o mesmo lado e espalha.
Nenhuma hipótese interessante nos vem à mente para explicar os resultados da equipe C. Sabemos que seus membros são ruins de mira. Não sabemos por que são tão ruidosos.
Como mera ilustração (cof, cof), aqui estão duas séries do meu treino de quinta-feira passada. Não há dúvidas de qual é a minha equipe. (spoiler: é a inicial do meu nome)
Neste livro, veremos que, apesar da pouca fama, o ruído está em muitos lugares. Por exemplo, todo mundo conhece alguém que recebeu dois diagnósticos diferentes para o mesmo problema de saúde, ou que ouviu de um especialista exatamente o oposto do que ouviu de outro. É aquela piada conhecida (você conhece, né?). Come logo esse ovo porque semana que vem tem um congresso médico e vão decidir que agora ovo faz mal. E não para na medicina. Decisões sobre guarda de crianças dependem de qual assistente social pegou o caso. Pedidos de asilo nos Estados Unidos variam de 5% a 88% de aprovação conforme o juiz. Analistas de patentes, peritos forenses, avaliadores de desempenho, todos apresentam variabilidade espantosa.
Ruído foi publicado em 2021, antes do ChatGPT chegar para ficar — e isso pode ser um problema. Os autores defendem que regras, fórmulas e algoritmos têm uma vantagem sobre humanos porque não são ruidosos. A mesma entrada produz a mesma saída. E aí fico aqui pensando que talvez isso explique por que tanta empresa correu para adotar IA generativa. Menos ruído, menos atrito na hora de decidir, menos gente discordando… menos custo. “Não sou eu que estou falando, é a IA” virou uma ótima desculpinha.
Daniel Kahneman, israelense-estadunidense que morreu em março de 2024, foi um dos psicólogos mais influentes do século 20. Ganhou o Nobel de Economia em 2002 por mostrar que humanos não são os agentes racionais que a teoria econômica supunha. Seu livro Rápido e Devagar vendeu milhões, mas é um calhamaço acadêmico que muita gente (eu) abandonou no meio. Ruído é diferente: mais curto, mais prático, escrito a seis mãos. As outras são de Olivier Sibony, consultor francês ex-McKinsey e professor de estratégia, o que explica o vocabulário de consultoria que aparece aqui e ali. E de Cass Sunstein, jurista estadunidense de Harvard e pai do conceito de nudge, o “empurrãozinho” que governos e empresas usam para conduzir as pessoas ao que consideram ser a escolha certa.
Se você quiser entender de onde veio Daniel Kahneman, recomendo muito O Projeto Desfazer, do Michael Lewis, um dos meus autores preferidos. Lá ele conta a história da amizade entre “Danny” e Amos Tversky, a dupla que mudou a psicologia do julgamento. (Tversky não recebeu o Nobel porque o prêmio não é dado para pessoas já mortas — faleceu em 1996, seis anos antes da premiação.)
Ruído não é um livro abstrato. As seis partes cobrem desde a detecção do problema até sua redução prática — onde o ruído aparece, por que acontece, o que fazer sobre ele e quanto dele é aceitável. E, no final, a famosa grande pergunta: será que zero ruído é mesmo o ideal? Às vezes, variar é considerar o contexto, olhar caso a caso. Os autores sabem disso. Estaremos de olho.
Agora é com você
A seguir começa a Parte I, “Encontrando o ruído”, onde começaremos por uma atividade extremamente humana e, por isso, com muito ruído: sentenças criminais.
Nos vemos lá,
crisdias





