📙 Quanto custa não mudar de ideia?
Resumo comentado do prólogo de "Pense de novo".
A única coisa de que podemos ter certeza é a incerteza.
— Zygmunt Bauman
Em agosto de 1949, quinze bombeiros especializados saltaram de paraquedas sobre Mann Gulch, uma ravina remota em Montana, para combater um incêndio florestal provocado por raios no dia anterior. Era uma operação rotineira. Profissionais de elite chegando pelo céu para controlar um fogo do lado de fora, abrir uma linha de defesa e ir para casa.
Mas o fogo tinha atravessado a ravina e vinha direto na direção deles. Chamas de quase dez metros avançavam, cobrindo dois campos de futebol por minuto. O líder do grupo, Wagner Dodge, mandou todos darem meia-volta e subirem a ribanceira.
Enquanto corriam morro acima por um terreno pedregoso, com grama até o joelho e mochilas de nove quilos nas costas, Dodge fez algo que ninguém entendeu — parou, pegou uma caixa de fósforos e começou a atear fogo na grama à sua frente.
“Achamos que ele tivesse enlouquecido”, lembrou um dos homens depois. Com um incêndio correndo atrás deles, por que o chefe resolveu começar outro incêndio na frente?
Dodge tinha inventado, ali na hora, uma queima controlada. Ao queimar a vegetação à sua frente, eliminou o combustível que alimentaria o incêndio quando chegasse. Deitou de barriga para baixo na área carbonizada, cobriu a boca com um lenço molhado e respirou o oxigênio rente ao solo enquanto o fogo passava por cima dele.
Ninguém o seguiu. Doze bombeiros morreram. O relógio de bolso de uma das vítimas foi encontrado com os ponteiros derretidos às 17h56.
Ferramentas que pesam
Boas-vindas à nova temporada do Clube de Cultura. Nosso livro da vez é Pense de novo, de Adam Grant — psicólogo organizacional, professor titular da Wharton School (a mais jovem contratação efetiva da história da escola), autor de cinco best-sellers do New York Times e apresentador do podcast WorkLife, do TED. Em Pense de novo, Grant investiga por que temos tanta dificuldade em mudar de opinião e o que se ganha quando a gente consegue. Os colegas de Wagner Dodge não foram um caso isolado.
Entre 1990 e 1995, 23 bombeiros florestais morreram subindo colinas em disparada para escapar de incêndios sem largar o equipamento pesado. Em 1994, no Colorado, 14 bombeiros morreram a 60 metros do topo de uma colina. Investigadores calcularam que, sem as mochilas e ferramentas, teriam se deslocado entre 15% e 20% mais rápido. Provavelmente teriam chegado.
Um dos sobreviventes do Colorado contou que só percebeu que ainda carregava sua serra a 250 metros morro acima. E, quando finalmente decidiu largá-la, perdeu tempo procurando um lugar onde ela não pegasse fogo. No meio de uma corrida pela vida, estava protegendo a serra.
Grant, que é psicólogo organizacional na Wharton, explica pelo olhar da identidade. O equipamento não é só equipamento — é o que faz do bombeiro um bombeiro.
Para um bombeiro, abandonar o equipamento não significa apenas desaprender hábitos e abandonar instintos. Significa admitir o fracasso e abrir mão de parte de sua identidade. Para fazer isso, um bombeiro precisaria repensar seu papel naquele trabalho — e na vida.
Faz sentido, mas eu sou mais cínico (e não sou psicólogo famoso). Acho que eles podem até ter cogitado largar tudo, mas pensaram na bronca que levariam caso sobrevivessem e chegassem sem o equipamento. A proteção do material é tão martelada durante o treinamento que abandonar itens caros “pelo sim, pelo não” tem consequências. A identidade pode ser uma parte da explicação, mas o medo do chefe gritando na segunda-feira também.
Somos todos sovinas mentais
Grant não usa Mann Gulch só como abertura dramática. A história aponta direto para o que ele quer discutir no livro inteiro, a dificuldade que temos de repensar o que já sabemos. Ou achamos que sabemos.
Ele traz o exemplo da falácia do primeiro instinto, que os farialimers chamam de gut feeling. Três quartos dos estudantes acreditam que trocar uma resposta numa prova piora a nota. Até a Kaplan, maior empresa de simulados do mundo, recomendava aos alunos ter cautela ao mudar respostas. Mas quando psicólogos analisaram 33 estudos sobre o assunto, descobriram que a maioria das trocas era de resposta errada para certa. Em um dos levantamentos, contaram marcas de borracha em mais de 1.500 provas. Metade das mudanças corrigia erros, e apenas um quarto trocava o certo pelo errado.
Mesmo quando alunos aprendem sobre essa falácia, não mudam de comportamento. Sabem que deveriam reconsiderar, mas não mudam de ideia.
Parte do problema é a preguiça cognitiva. Alguns psicólogos alegam que somos “sovinas mentais”: preferimos a facilidade de nos agarrarmos em visões antigas à dificuldade de compreender ideias novas.
Mas a questão vai além da preguiça. Quando colocamos uma certeza em dúvida, o mundo fica menos previsível, e isso é desconfortável. Psicólogos chamam esse fenômeno de “apreender e congelar” — a gente forma uma opinião e congela ali. Rimos de gente usando Windows 95, mas mantemos julgamentos que formamos em 1995.
Repensar algo em que acreditamos piamente é uma ameaça à nossa identidade, nos dá a sensação de que estamos perdendo parte de nós.
Com o tempo, entendi que uma das dificuldades da idade é exatamente essa. E nem estou falando de política nem nada assim. Coisas que eram verdades quando eu tinha 30 anos não necessariamente são verdades agora. Oportunidades de negócio, por exemplo. É o pensamento “ah, eu já tentei isso, não vai dar certo”. Sim, tentei em 2006 ou 2016. Preciso ficar me policiando o tempo todo para não matar ideias cedo demais só porque a tal da voz da experiência diz que não são boas.
Grant conta que ele também caiu nessa pãodurice mental. Na faculdade, fez parte de um grupo de estudantes que criou a primeira rede social de Harvard — um “e-grupo” que conectou mais de um oitavo da turma de calouros. Quando todos passaram a morar no campus, desativaram a rede. Cinco anos depois, Mark Zuckerberg lançou o Facebook no mesmo campus.
O que travou Grant e os colegas foi exatamente o ciclo de “apreender e congelar” que ele descreve no livro. Primeiro, definiram que a rede servia para fazer amigos antes de chegar ao campus — e não questionaram se poderia servir para mais. Segundo, tinham o hábito de usar ferramentas virtuais para se conectar com gente distante; quando passaram a morar perto, acharam que a rede perdia o sentido. Terceiro, mesmo com um cofundador estudando ciência da computação, decidiram que rede social era brincadeira de calouro, não o futuro da internet. E, por fim, nenhum deles se via como empreendedor — eram estudantes. A identidade selou o caixão da ideia. Cada uma dessas certezas, isoladamente, fazia sentido. Juntas, custaram bilhões.
Grant e os colegas até hoje pensam nisso. Mas tudo bem, ele acabou virando BFF de Sheryl Sandberg, ex-número-dois do Facebook,1 chegando a ser co-autor de seu livro sobre luto escrito logo após a morte repentina do esposo.
Às vezes, a melhor resposta é nenhuma resposta
O mais louco da história de Mann Gulch é que aquele incêndio nunca deveria ter sido combatido pra início de conversa. Desde a década de 1880, cientistas sabiam que alguns incêndios florestais são importantes para o ecossistema — eliminam matéria morta, devolvem nutrientes ao solo, abrem caminho para a luz. Quando se suprime todo fogo, a mata fica densa demais e o combustível acumulado alimenta queimadas ainda piores.
O Serviço Florestal dos Estados Unidos só mudou essa regra em 1978 — quase trinta anos depois de Mann Gulch. O fogo era numa área remota, não ameaçava ninguém. Mas ninguém na organização nem na profissão tinha questionado a premissa de que todo incêndio florestal precisa ser apagado.
Para Grant, essa é a grande tragédia. Doze bombeiros morreram não por falta de coragem nem de preparo físico, mas porque uma instituição inteira se recusou a repensar uma regra que a própria ciência já tinha desmentido. E esse tipo de falha não é exclusividade do Serviço Florestal. Grant aponta que vivemos rodeados de premissas congeladas — na política, no trabalho, nos relacionamentos. Ideologias que se calcificam, opiniões que se formam uma vez e nunca mais são revisitadas. O maior instrumento legal dos Estados Unidos, a Constituição, permite emendas. Nossas certezas pessoais, não.
Este livro é um convite para que você se desfaça de conhecimentos e opiniões que não o ajudam mais e ancore sua identidade na flexibilidade, não na consistência. Se formos capazes de dominar a arte do repensamento, acredito que teremos mais chances de alcançar o sucesso no trabalho e a felicidade na vida pessoal. Rever nossos pensamentos pode ajudar a encontrar novas soluções para problemas antigos e redescobrir soluções antigas para problemas novos. É um caminho para aprender mais com as pessoas ao nosso redor e viver com menos arrependimentos. Uma marca da sabedoria é identificar a hora de abandonar algumas das ferramentas que nos são mais preciosas — e algumas das partes que mais valorizamos em nossa identidade.
Assim começa Pense de novo, que acompanharemos pelas próximas semanas aqui no Clube de Cultura do Boa Noite Internet. Espero te encontrar por aqui.
Agora é com você
Qual certeza antiga você carrega que talvez não faça mais sentido? Qual “equipamento pesado” você continua segurando enquanto corre morro acima?
Me conta nos comentários. Nos vemos lá,
crisdias
E chefe do chefe da chefe do chefe do meu chefe quando entrei lá em 2013.



