Ruído: a próxima parada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet
Onde há julgamento, há ruído.
Sempre que observarmos um julgamento humano, provavelmente encontraremos ruído. Para melhorar a qualidade do julgamento, precisamos superar tanto o ruído como o viés.
— Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein
Em 2018, um estudo francês com 6 milhões de decisões judiciais ao longo de doze anos descobriu que réus recebem tratamento mais brando quando a audiência caía no dia do seu aniversário. Outro estudo, nos EUA, mostrou que juízes batem o martelo de forma mais dura na segunda-feira seguinte a quando o time do coração perdeu no fim de semana. E pedidos de asilo no país têm chance bem menor de serem aprovados quando o termômetro passa dos 30 graus do lado de fora do tribunal.
Não estamos falando de juízes mal-intencionados, mas de gente competente, treinada, que toma decisões diferentes para o mesmo caso dependendo de variáveis que não deveriam importar nada. O nome desse tipo de erro é ruído — e a tese do livro é que ele aparece em toda parte: no diagnóstico que o médico te deu, na nota que o aluno tirou, no salário que a empresa ofereceu, na sentença que o juiz proferiu.
É disso que trata Ruído: Uma falha no julgamento humano, de Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein — a próxima parada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet.
Kahneman já é conhecido aqui no Boa Noite Internet — psicólogo israelense-estadunidense, ganhou o Nobel de Economia em 2002 e escreveu o Rápido e Devagar, um dos livros mais influentes das últimas décadas sobre como pensamos (e erramos). Olivier Sibony é professor da HEC Paris e ex-McKinsey, especialista em decisão estratégica. Cass Sunstein é professor de Direito em Harvard e foi o principal arquiteto regulatório do governo Obama. Os três se juntaram para escrever um livro que, em vez de revisitar os vieses de Rápido e Devagar (o tema favorito da última década inteira de literatura de negócios), aponta o holofote para o irmão pobre do erro humano: a variabilidade aleatória.
Depois de questionar nossas certezas com Adam Grant, olhar a mecânica dos hábitos com Charles Duhigg e encarar a sociedade do espetáculo com Guy Debord, agora vamos ver como tomamos decisões e por que elas variam tanto entre pessoas que deveriam pensar parecido. Tudo isso pode parecer um tema árido, mas tem implicações enormes para tudo que está acontecendo em 2026 — IA generativa decidindo coisas no nosso lugar, polarização que esconde quanta inconsistência cabe dentro de cada lado, sistemas de avaliação automatizados que prometem objetividade onde nunca houve.
O livro tem 28 capítulos divididos em seis partes — praticamente empatado com Nexus em tamanho, o que o torna um dos maiores que já passaram pelo clube. Vamos com calma, ninguém solta a mão de ninguém.
Esta semana
Introdução + Capítulos 1–3 (~40 páginas)
Introdução: Dois tipos de erro — Estabelece a diferença entre viés (erro sistemático) e ruído (variabilidade aleatória). Os dois causam danos comparáveis, mas só o viés recebe atenção.
Capítulo 1: Crime e ruidoso castigo — O sistema de justiça criminal como caso extremo de ruído, com sentenças variando absurdamente para crimes idênticos. Como a pressão por reduzir essa variação virou lei nos EUA.
Capítulo 2: Um sistema ruidoso — Apresenta a “auditoria de ruído”, a ferramenta central do livro para medir discordância dentro de uma organização.
Capítulo 3: Decisões singulares — Responde à objeção “mas minha decisão é única”. Mesmo julgamentos irrepetíveis carregam ruído, porque são amostras de uma nuvem de respostas possíveis que a mesma pessoa daria em condições levemente diferentes.
Como funciona o clube
Para quem está chegando agora, toda sexta-feira publico resumos comentados dos capítulos da semana — as ideias do livro ao lado do que pensei enquanto lia, além de conexões com outras coisas que já falamos aqui no Boa Noite Internet e o que está acontecendo no mundo. Quem não conseguiu ler os capítulos não precisa ficar de fora, pode focar no resumo. Depois disso vem a melhor parte, nos comentários, onde as teorias dos autores enfrentam o teste da realidade (a nossa).
O Clube de Cultura é exclusivo para apoiadores do Boa Noite Internet. Se você ainda não faz parte, este pode ser o momento. Apoiando agora, você tem acesso a todas as discussões anteriores: Resista: não faça nada (Jenny Odell), Quatro mil semanas (Oliver Burkeman), Nexus (Yuval Noah Harari), A crise da narração (Byung-Chul Han), Nação dopamina (Anna Lembke), Religião para ateus (Alain de Botton), Amusing ourselves to death (Neil Postman), Não aguento mais não aguentar mais (Anne Helen Petersen), Inspiração (Matt Richtel), A sociedade do espetáculo (Guy Debord), O poder do hábito (Charles Duhigg) e Pense de novo (Adam Grant).
Nos vemos sexta?
crisdias
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Foto de Michael Dziedzic na Unsplash




