Um conto de ficção científica, uma IA e um monte de novas perguntas
O dia em que um desenvolvedor publicou um conto escrito com IA no fórum mais exigente da internet.
A arte é uma forma concentrada de intenção.
— Ted Chiang
Até hoje eu leio RSS. É, pois é, aquele tão 2005. E não sou viúva do Google Reader — instalei uma alternativa de software livre aqui e agora, ainda por cima, o conteúdo é meu e não de uma big tech. Mas não foi disso que eu vim falar hoje.
Um dos feeds que eu mais acompanho é o do Hacker News, o fórum da Y Combinator (a aceleradora por trás de startups como Dropbox, Airbnb, Stripe). É provavelmente o lugar mais influente da internet para quem trabalha com tecnologia, o tipo de lugar onde um paper obscuro de ciência da computação rende 500 comentários de gente que realmente entende do assunto — e onde se quer fazer sucesso.
Hoje de manhã apareceu no meu feed um conto de ficção científica postado por um tal de Scott Werner, que não é novato por lá. Werner é desenvolvedor, escreve ensaios sobre engenharia de software e IA, e já teve posts com mais de 800 pontos (o like do site). Nesse conto, ele ganhou 325 pontos, quase 200 comentários, muita gente leu e curtiu. A história do conto se passa num futuro próximo onde software não é mais programado — é gerado por IA a partir de especificações em linguagem natural. O protagonista é um “mecânico de software”, alguém que ganha a vida diagnosticando o que deu errado entre o que foi pedido e o que a máquina entregou. Ele atende clientes numa comunidade agrícola de Wisconsin, cada um com um problema diferente causado por código que ninguém escreveu de verdade.
Nem vou entrar no mérito se é bom ou ruim. São umas 4 mil palavras, uns 20 minutos de leitura — vai lá, lê e decide por conta própria. O que me interessa é como a história foi escrita e o que isso significa.
Werner deixou claro no post do HN que o conto foi escrito com IA, explicando o processo. Passou dois meses criando documentos de world-building, guias de estilo e estrutura narrativa, e depois usou o Claude para gerar o texto. Mais duas semanas editando para tirar o que chamou de “fluff (a famosa encheção de linguiça) e maneirismos de IA”. Não muito diferente do agentic coding — programação assistida por agentes de IA — que está sacudindo o mundo da engenharia de software, só que para ficção. Quem cria gera uma documentação base, manda a IA executar e outra IA verificar o resultado. Aí repete tudo até ficar bom.
Até aí tudo bem! Só que no Hacker News, a home mostra apenas o título do link, sem toda essa explicação que ele colocou. Quem clicou, leu o conto, gostou ou não e seguiu a vida. Só quem entrou para comentar viu o contexto completo. E é aí que as coisas ficaram interessantes. (Pelo menos pra mim.)
Um leitor escreveu: “Eu não percebi que era IA até chegar nos comentários, e me senti genuinamente enganado.” Outro respondeu que, se nada na experiência direta dele mudou, por que o julgamento deveria mudar? Um terceiro perdeu todo o interesse na hora em que soube — como se uma chave tivesse sido desligada. Alguém falou em “catarse roubada”, que ler ficção é buscar conexão com outra mente, e se essa mente não existe, a conexão é ilusória. Outro comparou o autor a um editor — “você descobriu o trabalho relativamente conhecido, mas pouco valorizado, de uma editora.” E eu concordo com todos esses argumentos, mesmo que, juntos, eles sejam contraditórios.
É tipo um teste cego de vinho. Você experimentou, gostou, e aí alguém mostra o rótulo e descobre que custava R$ 12. O prazer era real? Muda quando você sabe a origem?
Fico pensando nisso porque eu mesmo uso IA para me ajudar a escrever. No IA em Curso, a comunidade que eu e a Ana Freitas criamos, a maioria das pessoas não é de programadores — são professores, acadêmicos, videomakers, designers, funcionários de perícia policial, marketeiros… gente que quer usar IA para tirar ideias do papel e acelerar o trabalho do dia a dia, muitas vezes trabalho criativo. Então, goste você ou não, as pessoas estão usando — e adorando. E o processo do autor do conto se parece muito com o que eu vejo acontecer, porque ninguém está simplesmente digitando “escreva um conto legal de sci-fi” e publicando o que sai. As pessoas trazem as ideias e a estrutura, e usam a ferramenta para executar — depois editam, cortam, reescrevem. As ideias continuam sendo delas. Tanto é que costumo dizer que, pra mim, “escrever” é diferente de “digitar”.
Mas é claro que tem o outro lado. A loja de e-books do Amazon Kindle recebe milhares de livros gerados por IA por dia, a maioria sem imaginação nem edição (e muitas mulheres que engravidaram do CEO…), despejados por gente que quer volume e não qualidade. A Amazon não bane nada — só exige que quem escreveu declare se usou IA, mas os filtros apertaram em 2026 porque o mercado de livros de baixo conteúdo ficou inundado. O YouTube está recrutando usuários para combater o slop de IA nos vídeos. Uma coisa é criar um mundo imaginário com IA, outra é criar uma máquina que cospe 200 livros por minuto sem que nenhum ser humano tenha tido uma ideia sequer — e aqui estamos na era do slop. O Werner me pareceu estar mais interessado na experiência quase filosófica de criar ficção com IA do que em virar autor profissional.
Fora que essa história de “isso não é arte de verdade” já aconteceu antes, claro que aconteceu. Em 1982, o sindicato dos músicos do Reino Unido baniu sintetizadores, drum machines e “qualquer dispositivo eletrônico capaz de recriar sons de instrumentos convencionais”. O motivo foi que Barry Manilow trocou músicos de orquestra por teclados numa turnê. O NME, a revista de música mais importante do Reino Unido na época, chamou o sindicato de “lelés”. Os tecladistas, que eram membros do sindicato, fundaram a própria organização em protesto. O banimento ficou no papel por quinze anos — foi revogado em 1997, justamente quando surgiram os primeiros instrumentos virtuais.
A fotografia passou pela mesma coisa no século 19 — “isso não é arte, é uma máquina fazendo”. E, de quebra, levou artistas como Picasso e Dalí a criar movimentos artísticos incríveis como resposta a uma tecnologia que retratava a realidade melhor do que qualquer pintura. Hoje ninguém questiona Sebastião Salgado (mentira, questiona, mas por outros motivos), mas nem toda foto de celular é arte. E tá tudo bem.
O conto do Scott Werner tem até uma meta-ironia. Uma história sobre os bugs de software gerados por IA — ela própria um software gerado por IA, com bugs que escaparam da edição humana. Um leitor do HN achou erros lógicos nos cálculos de custo de ração da trama e comentou: “um erro de especificação numa história sobre erros de especificação.” O autor reconheceu o furo. Isso responde alguma coisa? Talvez. Ou talvez só acrescente mais uma pergunta à pilha.
Se você leu uma história e gostou, a experiência era real? O prazer muda quando você descobre quem — ou o que — produziu? Existe obrigação de avisar? E onde, exatamente, começa a autoria? Hoje, no ano de 2026 da nossa querida era moderna… eu não faço a menor ideia.
Por hoje é só
Obrigado por ler até aqui. Se você curte esse tipo de reflexão sobre criatividade e cultura, nosso Clube de Cultura está lendo Pense de novo, de Adam Grant, vai ser bem legal te ver por lá. E se quer usar IA de verdade no trabalho, com visão crítica e sem ser fanboy de bilionário, dá uma olhada no IA em Curso, a comunidade de letramento em IA que eu criei com a Ana Freitas. Por fim, passa no Discord do Boa Noite Internet, que é onde a gente se encontra pra conversar sobre criatividade, cultura, mas na real sobre qualquer coisa que a gente estiver a fim.
Cuidem de si, cuidem dos seus. Até a próxima,
crisdias



