📙 A cura do hábito — Muito mais do que força de vontade
Resumo comentado do Prólogo de "O Poder do Hábito"
Somos nossos próprios oleiros: são os hábitos que nos moldam, e somos nós que moldamos os hábitos.
— Frederick Langbridge
Em novembro de 2014, Mark Zuckerberg fez sua tradicional sessão semanal de perguntas e respostas na sede do Facebook. Uma pergunta chamou mais atenção que todas as outras sobre a empresa — por que ele usava sempre a mesma roupa, camiseta cinza e jeans? “Quero deixar minha vida mais clara para ter que tomar o menor número possível de decisões sobre qualquer coisa que não seja como servir melhor essa comunidade”, respondeu. Faz sentido. Temos uma quantidade limitada de decisões que conseguimos tomar por dia, então é melhor não desperdiçar com trivialidades como “qual camisa vestir”.
Eu fui, eu tava. Quando trabalhei para o Zuck, de 2014 a 2018, usava esse tipo de pergunta “nada a ver” como exemplo para explicar como essa dinâmica de transparência é importante para a cultura empresarial. Deu no que deu, Zuck hoje em dia prefere roupas-de-marca-que-não-têm-etiqueta-da-marca e cordões de ouro. E esse é o menor dos problemas dele, mas enfim.
Essa época era o auge da conversa sobre “fadiga de decisão” — a ideia de que nossa capacidade de escolher se esgota como uma bateria ao longo do dia, em um mundo com cada vez mais opções ao nosso alcance. Steve Jobs usava a mesma gola preta. Obama só usava ternos cinza ou azul. Os gênios tinham descoberto o truque. Ou era só preguiça mesmo, porque eu seria muito feliz se minha gaveta só tivesse a mesma opção de roupa e não precisasse ficar me preocupando com essa coisa chamada moda. Tomamos muitas decisões por dia, quanto menos, melhor.
Só que tem um problema. Um estudo de 2006 da Duke University, conduzido pelos pesquisadores David Neal, Wendy Wood e Jeffrey Quinn, descobriu que mais de 40% do que fazemos não são decisões de verdade e sim hábitos. Escovar os dentes, o caminho para o trabalho, o que você faz nos primeiros minutos após acordar ou qual parte do corpo ensaboar primeiro no banho (meu braço esquerdo). Tudo isso roda no piloto automático enquanto sua mente consciente está ocupada pensando em outras coisas. Ou seja, não estávamos desperdiçando energia mental escolhendo roupas. Zuck provavelmente já tinha um hábito de vestir qualquer coisa que estivesse na frente e transformou um hábito invisível num discurso sobre eficiência e liderança.
Pense na sua manhã de hoje. Você provavelmente não decidiu conscientemente qual pé colocar primeiro no chão, ou se ia checar o celular antes ou depois do café. Esses comportamentos simplesmente aconteceram, seguindo roteiros que seu cérebro aprendeu há anos e executa sem esforço. E ainda bem, eficiente, na verdade. Se tivéssemos que decidir conscientemente sobre cada pequena ação, ficaríamos exaustos antes do meio-dia — isso é verdade. Mas a maioria dessas pequenas ações já está no piloto automático.
Eu já escrevi sobre produtividade e procrastinação muitas vezes por aqui, porque uma coisa que sempre me incomoda quando o assunto é tratado em sites ou redes sociais é o tom de autoajuda que domina esse assunto. “Acorde às 5h da manhã”, “desenvolva uma rotina matinal de campeões”, “faça como os CEOs do Vale do Silício”. Como se só precisássemos querer muito para mudar de vida. O Poder do Hábito, do jornalista estadunidense Charles Duhigg, apesar de ter virado referência obrigatória nesse universo de produtividade, se destaca do banco porque, pelo menos, tenta explicar como os hábitos funcionam, em vez de só dizer que você deveria ter hábitos melhores.
E a primeira coisa que se descobre ao entender como funcionam os hábitos é que não “é só querer”.
O prólogo do livro segue aquele formatinho famoso em livros desse tipo, com o autor apresentando as histórias que vão aparecer ao longo do livro, estabelecendo a tese central e, principalmente, prometendo que sim, você também pode mudar. Quem beber acompanhar esta temporada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet, verá.
Lisa Allen e a promessa de transformação
Duhigg abre com a história de Lisa Allen, uma mulher de 34 anos que passou de fumante obesa e endividada para corredora de maratona, sem dívidas, fazendo mestrado. E nem precisou encontrar Jesus. A transformação começou num momento de crise: sozinha num quarto de hotel no Cairo, recém-divorciada, ela tenta acender um cigarro e percebe que está queimando uma caneta.
“Senti um desespero, como se tivesse que mudar algo, tivesse que achar pelo menos uma coisa que eu fosse capaz de controlar.”
Naquele momento, Lisa decidiu que voltaria ao Egito para atravessar o deserto. Uma meta arbitrária, quase absurda. Só que, para isso, ia ter que parar de fumar. E foi essa única mudança que desencadeou todas as outras: ela trocou o cigarro pela corrida, mudou a alimentação, reorganizou as finanças, voltou a estudar.
Os cientistas que estudavam Allen faziam parte de um projeto financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Durante três anos, eles acompanharam mais de vinte pessoas que haviam conseguido transformar suas vidas em períodos relativamente curtos. Instalaram câmeras nas casas dos participantes, sequenciaram trechos de seus DNAs, fizeram tomografias cerebrais. O objetivo era entender o que muda no cérebro quando os hábitos mudam.
No caso de Lisa, as tomografias mostravam que os padrões neurológicos antigos, associados aos velhos hábitos, ainda estavam lá. Mas tinham sido superados por padrões novos. Quando ela via comida, a área do cérebro associada a desejos e fome ainda se ativava. Porém, uma nova atividade na região frontal, ligada à autodisciplina, se tornou mais forte com o tempo. Seu cérebro tinha literalmente se reconfigurado.
Os cientistas identificaram algo que chamaram de “hábito angular” — um hábito que, quando modificado, provoca uma reação em cadeia de mudanças em outras áreas da vida. É um conceito sedutor, a ideia de que existe uma coisa que você pode mudar e que vai transformar todo o resto. Uma alavanca mágica.
O caso de Allen é “milagroso” e “inspirador”, mas é tão raro que literalmente virou objeto de estudo. Ela teve sucesso onde todos falhamos porque teve um alinhamento planetário de circunstâncias pessoais.
O major de Kufa e os hábitos coletivos
A segunda grande história do prólogo acontece no Iraque. Duhigg estava trabalhando como repórter em Bagdá quando ouviu falar de um major do exército americano que realizava um “programa improvisado de modificação de hábitos” em Kufa, uma cidade a 150 quilômetros da capital.
O major tinha analisado vídeos de tumultos recentes e identificado um padrão. A dinâmica sempre começava com uma multidão se reunindo numa praça. Ao longo de várias horas, a aglomeração crescia, vendedores ambulantes apareciam, até que alguém jogava uma pedra e o caos se instalava. Sendo assim, ele pediu ao prefeito que afastasse os ambulantes das praças. Sem comida, as multidões que se reuniam iam embora antes que a violência começasse. Os tumultos acabaram.
“Uma vez que você vê tudo como um monte de hábitos, é como se alguém te desse uma lanterna e um pé de cabra e você pudesse pôr as mãos à obra.”
O major contou a Duhigg que, antes de entrar para as Forças Armadas, sua melhor opção de carreira era consertar linhas telefônicas ou virar traficante de metanfetamina. Agora comandava oitocentas tropas numa das organizações militares mais sofisticadas do planeta. “Estou te dizendo, se um caipira como eu pode aprender essas coisas, qualquer pessoa pode.”
A história é interessante porque expande o conceito de hábito do individual para o coletivo. Multidões têm padrões. Organizações têm padrões. Culturas têm padrões. E esses padrões podem ser modificados se você entender como funcionam.
Mas quem está manipulando os padrões e para quê? O major usou seu conhecimento para manter a ordem numa ocupação militar. A Target usa para vender mais produtos. A Starbucks usa para treinar funcionários. As empresas de tecnologia usam para nos manter grudados nas telas.
O conhecimento sobre hábitos é poder. E, como todo poder, pode ser usado para libertar ou para controlar.
Vem aí
Duhigg estrutura o livro em três partes:
A primeira foca nos hábitos individuais. Como eles se formam no cérebro, como podemos criar novos e modificar os antigos. É a parte mais prática do livro, onde ele explica o “loop do hábito” — a estrutura de deixa, rotina e recompensa que veremos em detalhes no próximo capítulo.
A segunda parte examina os hábitos de empresas e organizações. É aqui que entram os cases corporativos: a Alcoa de Paul O’Neill, a Starbucks, os hospitais. É quando veremos como as empresas usam o conhecimento sobre hábitos para moldar o comportamento de funcionários e consumidores.
De algumas décadas para cá, a psicologia passou a ser weaponizada para moldar os comportamentos e aumentar as vendas. Hoje em dia, qualquer “especialista” em marketing digital vai falar em gatilhos mentais, enquanto agências de publicidade pensam em “pontos de dor” e reasons to believe.
A terceira parte analisa os hábitos de sociedades. Martin Luther King e o movimento pelos direitos civis, a megaigreja de Saddleback Valley e uma discussão ética sobre responsabilidade: se hábitos são automáticos, até que ponto somos responsáveis pelo que fazemos no piloto automático?
Vai ser uma jornada para mostrar que os mesmos princípios que governam o hábito individual de escovar os dentes também explicam movimentos sociais e culturas corporativas. Ela começa no capítulo 1, onde Duhigg apresenta o “loop do hábito” através da história de Eugene Pauly, um homem que perdeu a memória, mas continuou formando novos hábitos. É uma história que diz muito sobre como nosso cérebro funciona — e sobre o que acontece quando ele para de funcionar como esperamos.
Agora sabemos por que os hábitos surgem, como eles mudam, e a ciência que há por trás de sua mecânica. Sabemos como dividi-los em partes e reconstruí-los de acordo com nossas especificações. Entendemos como fazer as pessoas comerem menos, se exercitarem mais, trabalharem de forma mais eficiente e levarem vidas mais saudáveis. Transformar um hábito não é necessariamente fácil nem rápido. Nem sempre é simples.
Mas é possível. E agora entendemos como.
Agora é com você
Como é sua relação com seus hábitos? O que você busca nesse livro? Me conta nos comentários. Nos vemos lá,
crisdias



