📙 É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo
Resumo comentado do capítulo 1 de "Realismo capitalista".
O céu é um lugar onde nunca acontece nada.
— Talking Heads
No fim de julho, Elon Musk deu uma entrevista à editora-chefe da revista The Economist, Zanny Minton Beddoes, e descreveu o futuro que espera ver por conta da inteligência artificial: robôs e IA produzindo mais do que qualquer humano conseguiria consumir, uma economia “quase infinita” em que “o dinheiro não vai importar em 2036” e onde o Tesouro dos EUA emitiria “cheques” para todo mundo. Quando Beddoes quis saber como uma sociedade dessas se organizaria, ele recomendou a leitura de Iain Banks, autor escocês de ficção científica que era socialista declarado, e também disse querer um futuro no estilo Star Trek, aquela federação sem dinheiro que vários fãs já chamaram de comunismo no espaço. Ela apontou a contradição, ele negou ser socialista, e dali em diante, contou Matt Novak na Gizmodo, a conversa foi só ladeira abaixo.
O homem mais rico do mundo consegue descrever com entusiasmo um mundo de abundância em que o dinheiro perde o sentido, mas não consegue dar o passo seguinte e dizer que sistema seria esse. Mark Fisher tem um nome para esse bloqueio, e o primeiro capítulo de Realismo capitalista, escrito em 2009 — ainda na ressaca da crise financeira do ano anterior, que “terminou” com os capitalistas indo pedir ajuda aos governos que sempre disseram ser inúteis —, abre com a frase que atravessa o livro inteiro: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Fisher atribui a formulação a Fredric Jameson e Slavoj Žižek, mas quem a popularizou foi ele, e boa parte deste capítulo já estava num post de janeiro de 2007 do k-punk, o blog que manteve de 2003 a 2015. Realismo capitalista é o nome que ele dá à sensação de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável e de que imaginar uma alternativa a ele se tornou impossível. Se você acabou de chegar ao Clube, vai encontrar a história do autor e do livro no post de apresentação desta temporada.
Para mostrar essa sensação em funcionamento, Fisher passa boa parte do capítulo dentro de Filhos da Esperança, que Alfonso Cuarón filmou em 2006 a partir do romance de P.D. James. Se você ainda não assistiu, corre lá para ver esse filmaço,1 mas a premissa deste fim de mundo é que nenhuma criança nasce no mundo há uma geração, e numa das cenas que Fisher destaca, Theo (Clive Owen) visita o amigo rico Nigel (Danny Huston) na antiga termelétrica de Battersea, convertida num misto de prédio do governo e coleção particular onde o Davi de Michelangelo, a Guernica de Picasso e o porco inflável do Pink Floyd foram “salvos” da catástrofe.2 Theo pergunta de que adianta guardar tudo aquilo se não vai ter mais ninguém para ver, e ouve do amigo “eu tento não pensar nisso” — o que Fisher batiza de hedonismo niilista.
O que Fisher “só acha engraçado” é a distopia que deixa de mostrar o cenário totalitário de sempre, como 1984 ou V de Vingança, e passa a usar uma coisa específica do capitalismo tardio, com ultra-autoritarismo e capital convivendo sem atrito, campo de concentração de um lado e franquia de cafeteria do outro. O Estado não foi dissolvido como manda a cartilha “menas estado” neoliberal, só foi reduzido ao “básico” de forças armadas e polícia.
Houve um tempo em que filmes e romances distópicos eram exercícios semelhantes ao ato de imaginação — os desastres que descreviam serviam de pretexto para a emergência de diferentes formas de vida.
Em Filhos da Esperança não existe esse recomeço. O mundo do filme é uma extrapolação do nosso, e a catástrofe ali não está por vir nem já aconteceu, está sendo vivida. Não há o momento da explosão, como um meteoro caindo ou uma grande guerra começando. O mundo vai se apagando devagar. E se a causa é desconhecida e distante, qualquer ação é inútil, sobra só a esperança sem sentido, onde superstição e religião proliferam.
Para Fisher, a esterilidade da humanidade no filme é metáfora de uma ansiedade cultural deslocada, e a pergunta por trás do filme seria outra:
Quanto tempo pode durar uma cultura sem o novo? O que acontece quando os jovens já não são mais capazes de produzir surpresas?
Fisher diz que o filme herda o tema da esterilidade de A terra inútil, o poema que T.S. Eliot publicou em 1922, montando em fragmentos e citações o retrato de uma Europa esgotada no pós-guerra (a epígrafe que encerra o filme, “shantih shantih shantih”, é o verso final do poema). E é de um ensaio menos famoso de Eliot, Tradition and the individual talent (tradução livre: “Tradição e talento individual”), que ele tira o mecanismo que mantém uma cultura viva:
O novo se define como resposta ao canônico e, ao mesmo tempo, o canônico tem que se reconfigurar em resposta ao novo. […] Uma cultura meramente preservada, não é realmente cultura.
Sem olhos novos para contestá-la e modificá-la, a tradição vira estoque. É o destino da Guernica no filme, pintada como grito contra o fascismo e pendurada como decoração na sala de jantar de um bilionário.
Não precisamos esperar o futuro do filme virar realidade para reconhecer este processo. Em 2023, o crítico de arte Jason Farago argumentou no New York Times que este vai ser lembrado como o século menos inovador para a cultura desde a invenção da prensa, com pouquíssimas obras que não seriam assimiláveis pelos padrões de 1999 — já falamos disto aqui na newsletter.
A internet parece desmentir tudo isso, com a busca de uma novidade por dia, chamando o que aconteceu ontem de OLD. Só que velocidade de recombinação não é o mesmo que ruptura, e Fisher descreve o sintoma como a oscilação entre a esperança de que algo novo está por vir e a convicção de que nada de novo pode acontecer, o foco alternando entre a próxima grande coisa e a última grande coisa. Qualquer feed em dia de lançamento de iPhone (ou filme e até BBB) serve de exemplo, dividido entre quem espera a revolução e quem jura que a Apple não inova desde Steve Jobs. Antonio Gramsci escreveu da prisão, nos anos 1930, que a crise é o interregno3 em que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer, ideia que apareceu por aqui na conversa com o sociólogo Tulio Custódio.
Parte do poder do realismo capitalista vem da forma como ele consome toda a história anterior. Seu “sistema de equivalência geral” converte qualquer objeto cultural em valor monetário, de iconografia religiosa a O capital de Marx, e uma volta pelo Museu Britânico mostra o resultado, práticas e rituais de culturas inteiras convertidos em artefato de vitrine — o que já virou meme, porque tudo vira meme.
O capitalismo é o que sobra quando as crenças colapsam ao nível da elaboração ritual e simbólica, e tudo o que resta é o consumidor-espectador, cambaleando trôpego entre ruínas e relíquias.
Ele pega emprestada de Gilles Deleuze e Félix Guattari a imagem do capital como uma coisa sem nome, que muda de forma o tempo todo e digere tudo que encosta nela, parente do monstro de O Enigma de Outro Mundo, o filme que John Carpenter lançou em 1982 (e que a edição brasileira do livro cita pelo título original, A Coisa).
E ainda assim essa troca da crença pelo espetáculo é vendida como virtude:
O realismo capitalista apresenta a si mesmo como um escudo que nos protege dos perigos resultantes de acreditar demais.
Encarar o mundo com uma ironia distante nos imunizaria contra o fanatismo, e baixar as expectativas seria um preço pequeno a se pagar para se estar a salvo do terror e do totalitarismo. Fisher cita uma entrevista do filósofo Alain Badiou sobre esse conformismo que não ousa se chamar de ideal. Como ninguém consegue defender este estado de coisas como maravilhoso, os defensores da ordem dizem que todo o resto é que é horrível: nossa democracia não é perfeita, mas é melhor que as ditaduras sangrentas, o capitalismo é injusto, mas não é criminoso como o stalinismo… e por aí vai. Tanto que simplesmente pronunciar (ou escrever em newsletter) a palavra “capitalismo” já faz sair da toca um monte de gente dizendo “ah, então você quer viver no comunismo???”.
O “realismo” aqui é análogo à perspectiva deflacionária de um depressivo, que acredita que qualquer estado positivo, qualquer esperança, é uma perigosa ilusão.
A relação entre realismo capitalista e saúde mental é um dos fios que Fisher vai puxar pelo resto do livro, e essa frase é só a primeira ponta dele.
Tudo isso já tinha nome antes de Fisher transformar em modinha: o pós-modernismo, e ele admite estar descrevendo quase a mesma coisa. No sentido que Jameson consagrou em 1991, pós-modernismo é a cultura própria do capitalismo tardio, com pastiche e releitura no lugar de ruptura e vanguarda, o passado reciclado como estilo sob ironia permanente. Fisher dá três razões para preferir um termo novo.
A primeira é que, nos anos 1980, quando Jameson desenvolveu sua tese, ainda existiam alternativas ao capitalismo, ao menos no nome. O socialismo real agonizava, mas existia, e na Inglaterra a greve dos mineiros de 1984-85, um ano inteiro de paralisação contra o fechamento das minas de carvão, expôs o antagonismo de classes sem disfarce, até ser derrotada pelo governo de Margaret Thatcher com o argumento de que manter as minas abertas não era “economicamente realista”.4 A doutrina de Thatcher de que não há alternativa virou, nas palavras de Fisher, uma profecia autorrealizável brutal.
Em 1989, com o bloco soviético colapsando, Francis Fukuyama anunciou o fim da história num ensaio que viraria livro em 1992, e por fim da história ele queria dizer que a democracia liberal e o capitalismo tinham ganhado a discussão de vez, restando administrar o resultado. Fisher faz questão de lembrar que nem o próprio Fukuyama achava aquilo motivo de festa. Ele avisou que a “cidade radiante” que estava anunciando viria assombrada, só que por fantasmas nietzschianos em vez de marxistas, o mundo do “último homem” de Nietzsche, que já viu de tudo e por isso mesmo não consegue mais querer nada, entorpecido de história e blindado pela ironia.
A segunda razão é que o pós-modernismo ainda tinha o modernismo como adversário à altura, enquanto o realismo capitalista já dá essa disputa por encerrada. A terceira é geracional:
Para a maior parte das pessoas com menos de 20 anos, na Europa e na América do Norte, a falta de alternativas ao capitalismo não é nem sequer uma questão. […] O fato de o capitalismo ter colonizado até os sonhos da população é tão amplamente aceito que nem vale a pena comentar.
É desse terreno que Fisher tira o conceito de precorporação. A velha batalha era entre subversão e incorporação, o sistema correndo atrás para absorver o que nascia rebelde. Agora nem precisa correr, porque os desejos, aspirações e esperanças já chegam formatados de antemão pela cultura capitalista, e as zonas “alternativas” e “independentes” repetem infinitamente gestos de contestação como se fossem inéditos, estilos dominantes do mainstream que se apresentam como o lado de fora dele. “Música indie” virou só uma mistura entre rock e folk para pessoas que se acham descoladas.
Nisso fiquei aqui pensando na demanda de que “as empresas precisam apoiar causas sociais” — porque, afinal de contas, movimento custa dinheiro. Em junho, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo completou 30 anos com quatro marcas patrocinadoras, contra 11 no ano anterior, recuo que a organização atribui à mudança no apoio corporativo às pautas de diversidade. As empresas já não sentem pressão para bancar programas de diversidade — corta a verba então! Mas, cá entre nós, por que empresas (capitalistas) deveriam resolver os problemas raciais e de gênero da sociedade? É claro que elas precisam contratar pessoas de origens diversas para desmontar a elite homem-branco que as comanda, mas por que acreditamos que, se as marcas não colocarem dinheiro em eventos, se não fizerem campanhas “militudas” na TV, não há movimento? “Sem apoio fica difícil.” Só é possível exercer a resistência usando as ferramentas do capitalismo? Deixo para vocês responderem.
Para Fisher, ninguém encarnou (e lutou contra) o beco sem saída da precorporação como Kurt Cobain, a voz esgotada de uma geração que tinha nascido depois da história, aquela que Fukuyama tinha dado por encerrada dois anos antes de Nevermind estourar.
Cobain sabia que ele era apenas mais uma peça do espetáculo, que nada funcionava melhor na MTV do que um protesto contra a MTV; sabia que cada gesto seu era um clichê, previamente roteirizado, e sabia que até mesmo saber disso era um clichê.
Nesse impasse, até o sucesso era uma forma de fracasso, porque ser bem-sucedido significava virar a carne nova que o sistema devora. A depressão é um tema complicado demais para caber num resumo comentado de clube de cultura, mas, na minha cabeça, Cobain desistiu de viver exatamente por conta do arco descrito no capítulo. Ele viu que tinha se tornado o personagem mais importante do sistema que queria combater. É claro que não foi só isso, e, ainda por cima, Fisher escreveu essas páginas sobre Cobain oito anos antes de dar o mesmo destino à própria vida, em 2017.
Quando Cobain morreu, o rock já tinha sido eclipsado pelo hip hop, e é nele que Fisher enxerga o realismo capitalista maduro. Apoiado num ensaio de 1996 do crítico Simon Reynolds, ele mostra que “real”, ali, tem dois sentidos que se alimentam: a música autêntica, que não se vende nem suaviza a mensagem, e a “realidade” da instabilidade econômica, do racismo institucionalizado e da vigilância sobre a juventude. Era justamente por encenar a primeira versão que o gênero se tornava tão vendável na segunda, e esse circuito de retroalimentação, que despe o mundo de ilusões para mostrá-lo “como realmente é”, acaba servindo de propaganda involuntária para a tese de que não existe outro jogo possível.
O capítulo termina sem oferecer saída, porque Fisher não finge ter uma. Ele está desenhando um mapa, descrevendo o conjunto de reflexos que faz um trilionário recomendar um autor socialista e se achar o maior revolucionário capitalista do mundo.
Segue o fio
Parte do que Fisher toca neste capítulo já passou por outras paradas do Clube e por edições soltas da newsletter.
Em A mercadoria como espetáculo, Guy Debord conta como tudo passa a valer pelo preço, que é o “sistema de equivalência geral” de Fisher com outro nome.
Ainda no Clube do Espetáculo, Quando a cultura deixou de ser vida conta como a cultura se separou da vida e virou coisa que se consome, que é o destino da Guernica na sala de jantar do Nigel.
E O Sistema é fda, parceiro trata da ideologia que não precisa mais se defender de nada, porque já virou o cenário.
Byung-Chul Han, em Storyselling, mostra a narrativa sendo capturada pelo marketing, a precorporação acontecendo com as histórias que a gente conta.
Em O paradoxo do fim do mundo fui atrás de por que convivemos tão bem com a ideia de que tudo vai acabar.
Que legal isso que você fez! Devia botar para vender… (um dos posts de mais sucesso na newsletter) é a precorporação chegando no passatempo de fim de semana.
E Como o trabalho ficou tão merda, do Clube sobre Não aguento mais não aguentar mais, de Anne Helen Petersen, já anda pelo terreno dos próximos capítulos.
No podcast, conversei com a pesquisadora Issaaf Karhawi sobre a mercantilização da identidade, de novo a precorporação, agora chegando na parte de dentro da pessoa.
Agora é com você
Nos próximos capítulos, Fisher larga o mapa e vai a campo, visitando os lugares onde o realismo capitalista opera no cotidiano, do escritório à sala de aula.
Nos vemos lá,
crisdias
Ou não, porque aparentemente não está em nenhum streaming. Encontre por aí.
O porco veio da capa de Animals, que o Pink Floyd fotografou em dezembro de 1976 com um balão inflável de 12 metros, batizado de Algie, justamente amarrado a uma das chaminés do sul de Battersea. A usina serve de cenário desde bem antes disso: Alfred Hitchcock filmou ali em 1936, e depois vieram Ricardo III com Ian McKellen, O Discurso do Rei, Batman: O Cavaleiro das Trevas e os jogos Watch Dogs: Legion e Civilization VII. Desligada de vez em 1983, ela reabriu em outubro de 2022 reformada, com lojas, restaurantes e 254 apartamentos. Bem realismo capitalista, vamos combinar.
Interregno é o intervalo entre dois reinados, o tempo em que o trono fica vago e ninguém manda de fato. Gramsci anotou a frase nos Cadernos do cárcere, que escreveu na prisão fascista entre 1929 e 1935.
Quarenta anos depois, o argumento correu para o outro lado. Desde 2025, o governo Trump usa poderes de emergência para obrigar usinas a carvão já marcadas para fechar a continuar funcionando, liberou 13 milhões de acres de terras federais para mineração e anunciou 850 milhões de dólares de dinheiro público para o setor. Um estudo da consultoria Grid Strategies calcula a conta entre 3 e 6 bilhões de dólares por ano, pagos na fatura de luz de quem consome. Thatcher fechou as minas porque o mercado mandava, Trump segura o carvão de pé com dinheiro do Estado, mesmo os dois estando do mesmo lado do espectro político e, supostamente, defenderem que este Estado deve participar pouco da economia.




