O Poder do Hábito — próxima parada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet
Não é força de vontade, é método.
Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.
— Aristóteles
Parabéns! Dia 9 agora é Quitters Day — a segunda sexta-feira de janeiro, quando “estatisticamente falando” a maioria das pessoas desiste das resoluções de Ano Novo. Duas semanas lá, firme e forte na academia ou lendo todo dia de noite, e aí a motivação puf! evapora. Você volta ao sofá, celular na mão, rolando o feed feito um zumbi, se perguntando onde foi que errou.
Não foi falta de força de vontade. Foi falta de método.
E já que sexta-feira também é o primeiro dia do nosso novo Clube de Cultura do Boa Noite Internet, achei de bom tom trazer O Poder do Hábito, de Charles Duhigg. Um livro que explica a mecânica invisível por trás dessas duas semanas de sucesso seguidas de fracasso — e como hackear esse sistema.
Um dos meus livros preferidos do que chamo de “autoajuda que não é autoajuda” — e que, portanto, é autoajuda sim — já falei dele na minha lista dos 5 livros de autoajuda que realmente valem a pena, e desde que li pela primeira vez, uns 10 anos atrás, venho querendo uma desculpa para reler. É a hora.
Charles Duhigg é jornalista do New York Times e vencedor do Pulitzer. O Poder do Hábito não é um daqueles livros de produtividade que prometem transformar sua vida em 21 dias. É uma investigação sobre a neurociência dos hábitos — como eles se formam, por que existem e por que são tão difíceis de mudar.
Depois de passarmos pelo burnout millennial, pela sociedade do espetáculo, pela economia da atenção e pela crise da narração, esta é a hora de olharmos o básico, os padrões automáticos que comandam nosso dia a dia. Os famigerados hábitos. Porque de nada adianta entender que o TikTok sequestra sua atenção se você não entende por que sua mão abre o app sem você pedir. Ou saber que está exausto se continua repetindo as mesmas rotinas que te esgotam.
Duhigg apresenta o “loop do hábito” — deixa, rotina, recompensa — e mostra que não dá para simplesmente apagar um hábito ruim. É preciso substituí-lo, mantendo a mesma deixa e a mesma recompensa, mas trocando a rotina no meio. É contraintuitivo e funciona — falo com tranquilidade, já botei este método em prática várias vezes.
O livro também vai além do lado individual, mostrando como empresas manipulam nossos hábitos para vender. Foi nele que apareceu pela primeira vez a famosa história de que a Target adivinhou que uma mulher estava grávida antes mesmo de ela contar para a família. Também vamos ver como movimentos sociais se espalham por meio de hábitos coletivos, e levanta até questões filosóficas: se nossos hábitos são automáticos, somos responsáveis por eles?
Agenda
O livro está organizado em três partes e nove capítulos. Vamos em cinco semanas:
Semana 1 — O Loop do Hábito
Prólogo + Capítulo 1 (~49 páginas)
Capítulo 1: O Loop do Hábito — Através da história de Eugene Pauly, um homem que perdeu a memória mas ainda conseguia formar novos hábitos, Duhigg mostra que toda rotina automática segue um ciclo de deixa → rotina → recompensa. Seu cérebro quer poupar energia, então transforma sequências repetidas em piloto automático.
Semana 2 — Ciência do cérebro e mudança
Capítulos 2-3 (~81 páginas)
Capítulo 2: O cérebro ansioso — Como Claude Hopkins fez os EUA escovarem os dentes criando um anseio pela sensação refrescante da pasta. Os hábitos poderosos funcionam porque seu cérebro começa a antecipar a recompensa assim que vê a deixa, criando um impulso quase impossível de ignorar.
Capítulo 3: A regra de ouro da mudança de hábito — Um hábito não é simplesmente eliminado, é substituído. Mantenha a deixa, mantenha a recompensa, troque a rotina. É assim que os Alcoólicos Anônimos funcionam. E a mudança só permanece se houver um quê de fé — frequentemente sustentada por uma comunidade.
Semana 3 — Hábitos angulares e força de vontade
Capítulos 4-5 (~75 páginas)
Capítulo 4: Hábitos angulares — Alguns hábitos desencadeiam transformações em cascata. Paul O’Neill revolucionou a Alcoa focando apenas em segurança — e acabou melhorando tudo. Michael Phelps usava rituais mentais pré-prova que tornavam a vitória uma extensão natural dos seus hábitos.
Capítulo 5: Starbucks e o hábito do sucesso — Força de vontade é um músculo que pode ser treinado, mas também se esgota. A Starbucks ensina funcionários a criar planos para momentos de estresse. E descobriu que dar autonomia às pessoas preserva sua disciplina.
Semana 4 — Manipulação e crises
Capítulos 6-7 (~79 páginas)
Capítulo 6: O poder de uma crise — Líderes inteligentes usam crises para reformular hábitos institucionais. Quando a rotina quebra, há uma janela em que tudo se torna maleável. É assim que hospitais melhoram segurança e empresas mudam cultura.
Capítulo 7: Como a Target sabe o que você quer — Varejistas usam dados para identificar momentos de transição na vida (como gravidez ou mudança de casa) quando seus hábitos de compra estão mais flexíveis. E aprenderam a disfarçar isso para você não perceber que está sendo manipulado.
Semana 5 — Movimentos sociais e livre-arbítrio
Capítulos 8-9 (~83 páginas)
Capítulo 8: Como os movimentos acontecem — O boicote aos ônibus de Montgomery não começou só com Rosa Parks — começou porque ela tinha laços fortes na comunidade. Movimentos sociais crescem por meio de pressão social e novos hábitos de identidade.
Capítulo 9: A neurologia do livre-arbítrio — Se hábitos são automáticos, somos responsáveis por eles? Duhigg compara um homem que matou a esposa durante um episódio de terror noturno com uma viciada em jogos. E chega à conclusão de que, uma vez que sabemos que um hábito existe, temos a liberdade — e a responsabilidade — de mudá-lo.
Como funciona o clube
Para quem está chegando agora: toda sexta-feira publico resumos comentados dos capítulos da semana, conectando as ideias do livro com nosso contexto de 2026 — aplicativos, algoritmos, produtividade tóxica, vida digital. Quem não conseguiu ler pode acompanhar pela conversa. E a melhor parte acontece nos comentários, onde testamos se as teorias de Duhigg sobrevivem ao confronto com a realidade.
O Clube de Cultura é exclusivo para apoiadores do Boa Noite Internet. Se você ainda não faz parte, este pode ser o momento. Apoiando agora, você tem acesso a todas as discussões anteriores: Resista: não faça nada, Quatro mil semanas, Nexus, A crise da narração, Nação dopamina, Religião para ateus, Amusing ourselves to death, Não aguento mais não aguentar mais, Inspiração e A sociedade do espetáculo.
Nos vemos na sexta para começar a entender por que você não consegue parar de checar o celular — e o que fazer a respeito.
Até lá,
crisdias




