Se você fosse uma estrela do mar, como vestiria suas calças?
E ainda: a pequena web, fake news pra todo mundo… e muito mais!
É um mal-entendido cultural bem comum, mas em O Hobbit, o Smaug sentado em cima das pilhas de ouro e joias não é o mocinho da história.
— John Green
Meu objetivo esse ano é fazer você dar menos scroll em rede social de vídeo ou post curto. Então resolvi trazer de volta uma rotina que eu tinha aqui na newsletter até 2024: a Surra de Links, com artigos longos e notícias interessantes sobre qualquer assunto. Tudo para você sair do vício da dopamina rápida.
Webzinha 🤏
Se no começo da semana eu desejei que em 2026 você tivesse um blog — e muita gente curtiu, obrigado! —, essa semana descobri que não estou maluco sozinho e que esse desejo tem nome: small web.
O conceito apareceu em dois artigos que descobri essa semana. O primeiro, “Rediscovering the Small Web”, de Parimal Satyal, é uma celebração da web pessoal, criativa e amadora dos anos 90 e começo dos anos 2000. Ele fala de sites feitos por pessoas comuns que só queriam compartilhar seus passatempos com o mundo. Sites desajeitados, esquisitos, mas divertidos e interessantes. Uma web que ainda existe, você só precisa saber onde procurar.
O segundo, “The small web is beautiful”, de Ben Hoyt, vai além da estética nostálgica e defende uma filosofia: quanto menor, melhor. Menos dependências tecnológicas, menos megabytes. Por quê? Porque menos coisas vão quebrar, os sites carregam mais rápido e gastam menos energia do planeta e do seu telefone.
A small web vai além do saudosismo de quem viveu os anos do Geocities. Funciona como resposta consciente à web comercial de hoje, otimizada para engajamento, conversão e vigilância. Uma web onde você é o produto, não o criador.
Isso também se conecta com a ideia de “jardins digitais” — sites onde você organiza seu conhecimento sem a ditadura do formato cronológico dos blogs e feeds. Nem tudo precisa ser post novo toda semana. Como comentei em 2022:
Uma das grandes diferenças entre a abordagem topológica e a cronológica é que em um mundo de feeds estamos sempre performando, no sentido teatral da coisa, para depois performar no sentido startupeiro da coisa.
O ano da fricção no mundo
Se a small web fala de abraçar a dificuldade de fazer seu próprio site, a tendência de 2026 parece ser abraçar a dificuldade… em tudo.
“In 2026, We Are Friction-Maxxing” é a previsão da colunista Kathryn Jezer-Morton no The Cut. A tese dela é que, diante de tecnologias que vendem escapismo a cada segundo, precisamos construir tolerância para a “inconveniência”. Não fugir do desconforto, mas usá-lo como ferramenta para regular nossas emoções — e as dos nossos filhos.
Uma orientação em favor do atrito é, na prática, a única defesa que temos contra a sucção aniquiladora da vida promovida pelas tecnologias de fuga. Sem atrito, a maioria das crianças não terá motivo algum para gostar de ler — muito menos para aprender a pensar por conta própria. Se você já está cansado de discutir “tempo de tela” (e quem não está?), talvez seja hora de reorganizar o debate em torno do atrito, e não das telas.
Isso me lembrou imediatamente do Tim Wu, professor de direito em Columbia e crítico das big techs. Em 2018, bem antes do ChatGPT, ele escreveu no New York Times sobre “The Tyranny of Convenience”. A conveniência, segundo ele, é a força mais poderosa e menos compreendida do mundo moderno. Ela venceu até o “de graça” — lembra quando todo mundo baixava música pirata? As pessoas preferiram pagar pelo iTunes e Spotify porque era mais conveniente do que caçar torrents.
Conveniência é só destino e nenhuma jornada.
Com a IA automatizando ainda mais a vida, as coisas “que dão trabalho” podem virar artigo de luxo — pelo menos para quem tiver dinheiro para consumir “coisas orgânicas”. A fricção como privilégio. É um bom movimento de resistência contra a tecnologia-pela-tecnologia. Talvez a gente tenha aprendido alguma coisa com a internet e a ascensão dos celulares.
Tim Wu me impactou tanto que já falei dele no podcast e aqui na newsletter. Jezer-Morton vem forte aí, buscando seu triplex na minha mente.
Fake news no dos outros é refresco
Um post bombou no Reddit essa semana: um suposto engenheiro de software de um aplicativo de entrega revelando os bastidores sujos da gig economy. Trabalhadores chamados de “ativos humanos”, notas de “desespero” para pagar menos, entregas prioritárias que eram só placebo psicológico. (O post foi removido pelo moderador do /r/confessions.)
Eu mesmo li uma versão traduzida e achei convincente. Muita gente compartilhou. John Cleese, o do Monty Python, chamou de “exemplo perfeito da ganância sem sentido que suga a generosidade da psique americana”.
Só que era tudo falso. 🤡
O Business Insider e The Verge investigaram e descobriram que o tal X9 usou IA para fabricar até o crachá da empresa. O CEO do DoorDash foi ao X desmentir ponto por ponto. Mas aqui no Boa Noite Internet não colocamos link para o site do Elon Musk.
Longe de mim defender os apps de entrega. Eles têm problemas reais, especialmente a falta de transparência sobre como calculam o pagamento dos entregadores. O DoorDash mesmo pagou US$ 16 milhões para encerrar um processo de roubo de gorjetas.
Mas a autocrítica aqui é importante. A história viralizou porque confirmava o que já acreditávamos. E não adianta dizer que fake news é coisa de quem reza para pneu na frente de quartel. Todos nós caímos em histórias que parecem verdadeiras porque encaixam na nossa visão de mundo. No meu coração, parece ser verdade.
Palavras têm poder
Eu digo que palavras têm poder não é de hoje:
Palavras mágicas, com Cris Bartis
O mundo está cheio de palavras mágicas, para o bem e para o mal. Tem "abre-te sésamo" mas tem "avada kedavra". O poder dessas palavras é o tema da conversa com Cris Bartis, do Mamilos Podcast.
No artigo “We Need to Talk About How We Talk About AI”, Emily M. Bender, professora de linguística computacional na Universidade de Washington, e Nanna Inie, pesquisadora de interação humano-computador, argumentam que a linguagem que usamos para descrever sistemas de IA — “raciocínio”, “alucinação”, “assistente” — é antropomorfizante. E é de propósito, porque essa linguagem mascara as limitações dos sistemas e tira a responsabilidade de quem os desenvolve.
“Alucinação” sugere um bug, uma falha pontual. Mas inventar informação faz parte do funcionamento do sistema. “Raciocínio” sugere compreensão, quando o sistema só combina palavras estatisticamente. Essa linguagem é ótima para o marketing das big techs, que vendem a ilusão de que você está conversando com alguém.
E complica a regulação também. Se a IA “mentiu”, parece culpa dela. Mas não existe “ela” — só existem decisões de design feitas por empresas com nomes, endereços… e bilhões no banco.
A estrela do mar veste calças?
Sabe esse meme que pergunta como uma estrela do mar vestiria calças?
Por essa você não esperava. Cientistas descobriram em 2023 que elas são praticamente só cabeça. Não têm tronco. São cabeças ambulantes com cinco braços.
🫠
Os genes que formam a cabeça em outros animais estão ativos no corpo inteiro da estrela do mar. Elas “perderam” o tronco em algum momento da evolução e se reorganizaram de um jeito completamente novo.
Então tá.
É o Werner, não tem jeito
O que acontece quando dois cineastas fazem o mesmo filme — mas um deles é Werner Herzog?
Esse vídeo-ensaio é de um dos meus canais preferidos, o Like Stories of Old, que eu apoio financeiramente no Patreon. Se você gosta do tipo de conteúdo que faço aqui, considere apoiar o Boa Noite Internet também!
Mudança de hábito
Lembrando que hoje à noite começa a nova temporada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet, com O poder do hábito. Se você ainda não entrou, vem por aqui.
Se você quer usar IA de verdade no trabalho, sem hype e sem cinismo, conheça o IA em Curso, a comunidade de letramento contínuo em IA que criei com a Ana Freitas.
E, pra fechar, não termine sua semana sem passar lá no Discord do Boa Noite Internet, a turma do fundão da rede mundial de computadores.
Por hoje é só
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Cuidem de si, cuidem dos seus. Até a próxima,
crisdias





