Em 2026 eu desejo que você tenha um blog
Ter um blog mudou minha vida.
Eu fico absolutamente chocado com o quanto de gente em ambientes de empresas de tecnologia acha que a vida é algo que dá para ser otimizado até desaparecer.
— Tom Goodwin
Em 2026, eu desejo que você tenha um blog.
Mas não um blog para “ganhar dinheiro” — ninguém mais ganha dinheiro com blog, que papo é esse! kkkkkrying. Um blog para você pensar e colocar esses pensamentos no “papel”, cuidar, voltar sempre, ser o seu cantinho, seu baú de ideias e curiosidades.
Ontem eu estava lendo um blog que contava a origem da expressão “ensaio”. Esse formato que usamos muito em blogs, que também gosto de fazer no meu podcast (quando tenho forças) e popularizado até no YouTube em canais como Nerdwriter e Like Stories of Old. Pois, vejam só, esses textos levam esse nome porque ali por volta de 1570 o francês Michel de Montaigne lançou uma coletânea de textos sobre os mais diversos assuntos chamada, no original, essais. Que quer dizer “tentativas”. Por isso a gente usa essa palavra no teatro, porque queremos dizer “ainda não tá pronto, beleza?”.
Um ensaio (e, por tabela, um post de blog) é isso, uma tentativa. Não é a conclusão definitiva, uma tese de mestrado nem nada. É um grande “eu tava pensando aqui…”, que é como muitas vezes eu penso em começar algum post meu.
Então, em 2026, eu desejo que você tente, no sentido montaigniano da palavra.
Tente para você. Escreva para você, não para os outros. De preferência, escreva em um lugar sem “botão de curtir”. O texto está lá, quem quiser que leia.
Eu blogo desde novembro de 2000 — entra rede social, sai rede social e cá estou aqui blogando — e essa é a “fórmula” que não falha. Eu escrevo para mim, não para hitar. Escrevo como um lembrete para mim, ou para o que a professora Anna Rogers chamou de “escrita como pensamento”. Escreva um blog para pensar. Este post aqui mesmo, sou eu conversando comigo. Se você concordar, poxa, que legal. Minha tentativa deu em alguma coisa. Se discordar, tudo bem, faça a sua tentativa dizendo o que acha. É assim que as pessoas faziam na época do Montaigne, escreviam longas cartas debatendo ideias.
Aliás, blog também é uma conversa — foi inventado antes da caixa de comentários. Blog bom é cheio de links, porque somos nós reconhecendo que não sabemos tudo e que só estamos juntando ingredientes para formar pensamentos. Só que vivemos em uma era onde os links estão morrendo, porque tirar você dali (do app ou do site de notícias) é péssimo para o business. Mas aqui não temos business, só queremos tentar e conversar.
Minha citação favorita quando o assunto é criatividade é da escritora estadunidense Flannery O’Connor: “Escrevo porque só sei o que penso depois de ler o que escrevi.”
Na era da IA é isso que nenhuma máquina vai conseguir tirar de você: suas ideias, sua visão de mundo, insights, sentimentos… Não dá para você dizer para a IA “escreva como eu me sinto”. Só você pode fazer isso por você.
Escrever também vai ter outro efeito. Quando você criar um blog, provavelmente vai reparar que está frequentando menos as redes sociais, porque você vai passar a ser uma pessoa do texto. E tudo bem dar aquela passada na tela pra relaxar a cabeça, não estou aqui desejando que você vire uma daquelas pessoas chatas que debate forma em vez de conteúdo. Arte foi feita para tocar pessoas, não para caber em uma definição do que é e não é arte. Se você criou e aquilo fez diferença para alguém, pronto, é arte.
Aliás, mais um aliás, lembrei de outra frase que eu gosto muito, ninguém sabe quem disse pela primeira vez: Escritores escrevem. Já foi o papel de parede do meu computador por muito tempo, para eu não esquecer.
Quer ser escritor? Escreva. Fim. Escritor é quem escreve, não quem fez o curso de escrita criativa, nem quem vê vídeos sobre escrita no YouTube, ou quem caga regra do que é ou não é literatura, tampouco quem tem um projeto muito bom de um livro na cabeça, mas agora não dá porque tá muito corrido, sabe como é, depois que eu terminar esse projeto do trabalho aqui eu escrevo.
Escritores escrevem, corredores correm, pintores pintam, cantores cantam, bailarinos bailam, futebolistas futeboleiam. A arte é a prática, não o título. Se você escreve, você é escritor e ninguém pode lhe tirar isso.
Escrever mudou minha vida e é isso que eu desejo para você em 2026.
Não sabe por onde começar? O Substack, onde estou publicando isso aqui, tem vários problemas técnicos e ideológicos, mas assim é viver nesse quarto de século. Mas, para não parecer que isso aqui foi uma grande propaganda velada deles, você também pode usar o Beehiv — só ignore a parte de “crescimento” e “negócios” de todos estes sites.
Também existem outras ferramentas grátis, como o Wordpress (onde este blog vivia antes). Ou coisas mais novas, como o bearblog, write.as e Micro.blog. Você também pode ler esse guia do crieaporradeum.blog, nem que seja pelas risadas.
Agora é sua vez. Vai lá e escreve, depois me manda o link.
Por hoje é só
Cuidem de si, cuidem dos seus, feliz 2026. Até a próxima,
crisdias




Cris, sou firmeiro, trabalho muito e termino o dia com a energia ó, lá embaixo. Como era pra vc nos seus tempos de Facebook? Escrevia menos ou não te afetava muito? Precisando de um sacolejo por aqui pra ver se volto a escrever...rs
Sim sim sim e sim. Só quando criei um compromisso de escrita que eu me senti movimentando a vida para o que quero, de verdade. Só o ato de parar pra descaraminholar a cabeça, ouvir meus pensamentos, organizar as 36 vozes que gritam ao mesmo tempo, a vida flui mais leve. E o medo de ter sempre que escrever algo fodástico foi substituído por escrever o que precisa ser escrito — sempre tem um trem berrando na mente que implora pra ir pro papel.