Neste sábado, a morte de David Bowie completou 10 anos. (Sempre bom lembrar o meme de que o universo começou a ir pro ralo nesse dia, quem tiver uma máquina do tempo que resolva.) Muita gente está homenageando Bowie, por conta de toda a influência dele não só na arte como na maneira como encaramos a vida.
Correndo o risco de ser bloqueado por aí, vou confessar que não tenho uma ligação de super fã com ele, ao contrário de certas pessoas, cof cof. Quando eu era um garoto juvenil, vivi a fase “explosão do rock nacional”, com bandas como Paralamas e Legião, por isso artistas gringos me interessavam menos, principalmente “medalhões” como Bowie.
Para piorar as coisas, a música Let’s Dance (1983) tocava tanto no rádio que eu ainda tenho um pouco do ranço em mim. “Caraca, essa música de novo! Chega!” (Cris Dias, o Pequeno Crítico)
Apesar de mal ouvir suas músicas, não ficar vendo Labirinto (1986) todo ano, nem ter a discografia na estante, Bowie faz parte de uma categoria artística bem peculiar que tenho aqui, onde também estão gente como Stephen King e Kurt Vonnegut.
Até hoje só li dois livros de King, nessa ordem: sua ótima biografia-misturada-com-curso-de-escrita, e Carrie. Sim, eu li a biografia de um artista só pela fama. Me foi muito bem recomendada. O gênero terror-alienígena-sobrenatural de King me interessa menos do que a maneira com que ele encara O Ofício. Não é que seus livros (ou as músicas de Bowie) sejam ruins. Só não são do meu tipo.
Por isso, minha contribuição nessa semana de homenagens, é esta lição de Bowie sobre tocar para a plateia, jogar para a galera, agradar o público, seguir trends — cada vez mais relevante em uma época em que o próprio público pressiona artistas para ficarem dentro das suas caixinhas porque estão ali para servir, não para se expressar. É só ver os fãs que reclamam quando Roger Waters ou Rage Against the Machine falam de… affe… política!
(Talvez a entrevista mais citada do Bowie? Não faço ideia.)
Nunca toque para a plateia. Acho que isso você só aprende muito depois. Nunca trabalhe para os outros naquilo que você faz.
Sempre, sempre lembre que a razão pela qual você começou a trabalhar foi porque havia algo dentro de você que você sentia que, se pudesse manifestar de alguma forma, entenderia mais sobre si mesmo e como você coexiste com o resto da sociedade. E acho terrivelmente perigoso para um artista satisfazer as expectativas dos outros. Acho que eles produzem, eles geralmente produzem seu pior trabalho quando fazem isso.
E se… outra coisa que eu diria é que se você se sente seguro na área em que você está trabalhando, você não está trabalhando na área certa. Sempre vá um pouco mais fundo na água do que você acha que é capaz de estar. Vá um pouco além da sua profundidade e quando você sentir que seus pés não estão tocando o fundo, você está apenas no lugar certo para fazer algo emocionante.
A conversa é parte do documentário Inspirations (1997) do diretor britânico Michael Apted, que, além de Bowie, conversou sobre arte e criatividade com gente como o artista plástico estadunidense Roy Lichtenstein e a poeta também estadunidense Nora Naranjo Morse, entre outros.
Essa coisa de “jogar para a galera” é sempre um ponto crítico para quem produz arte. E tem a ver também com toda a história de passar a chamar arte de “conteúdo”, já que essa palavra estabelece uma relação mais fabril, onde cada “peça” tem um “cliente” do outro lado, que deve ser compreendido e agradado. Porque o cliente sempre tem razão.
Para Bowie, a arte deve sempre começar desse “algo dentro de você que você sentia que, se pudesse manifestar de alguma forma, entenderia mais sobre si mesmo e como você coexiste com o resto da sociedade”. Conteúdo existe para agradar um público e, hoje, um algoritmo. Em um mundo digital com oferta e poder de cópia infinitos, precisamos ser descobertos o tempo todo, antes por críticos culturais e DJs, agora por linhas de código que ninguém sabe exatamente como funciona.
Na minha palestra sobre “curiosidade como abordagem de vida”, uma das primeiras coisas que comento é sobre a “mente de principiante”, um conceito que vem do zen budismo, mas que se aplica muito à arte. Para mim, quando artistas entram na tal da zona de conforto, deixam de ser artistas e passam a ser outra coisa.
Gente que vai de Picasso a Vik Muniz (que eu citava tanto na palestra que tive que cortar para não estourar o tempo) e Taylor Swift vive “eras”, fases para explorar jeitos diferentes de expressar o tal do “algo dentro de você” que Bowie diz. Já outros artistas… você sabe como vai ser o próximo álbum ou a próxima coleção. Sai a arte, entra o produto. Não é artista, é só uma marca. Tanto que a pior agressão a quem vive de criatividade é acusar que “se vendeu para o sistema”. Trocou sua integridade artística pelo vil metal.
Então é isso, não se vendam ao sistema, pensem sempre na sua arte e, seguindo os passos de David Bowie, o sucesso comercial e os milhões virão.
Hummm… Mais ou menos.
Let’s Dance
Este post ia ser só uma pregação motivacional de “ame sua arte”, mas nos dias em que fiquei trabalhando nele, eu não conseguia parar de pensar justamente em Let’s Dance, a música que eu tanto odiava do alto dos meus 10 anos de idade — e o álbum de mesmo nome, que abre com Modern Love (dessa eu gosto) e também tem China Girl, parceria de Bowie com Iggy Pop.
Porque Let’s Dance é o maior sucesso comercial de Bowie, um “hit totalmente dançante” que parece ter sido criado para tocar no rádio e vender muito disco, lançado quase 15 anos antes da entrevista onde ele diz para não tocar para a plateia — mas também que “só se aprende isso mais tarde”. 🤔
Se você queria fazer hits no início dos anos 1980, Nile Rodgers era o cara para se procurar. Quer ver só? Guitarrista e co-fundador do Chic, a banda por trás de clássicos do disco como Le Freak e Good Times, Rodgers já tinha produzido o álbum Diana de Diana Ross em 1980, com os hits Upside Down e I’m Coming Out. Depois de Bowie, produziria Like a Virgin (1984), da Madonna.
Quando Bowie o chamou para produzir o álbum, foi direto: “Nile, eu realmente quero que você faça hits.”
Rodgers conta que levou um susto:
Fiquei meio sem jeito, porque eu sempre achei que David Bowie fazia arte primeiro, e se por acaso virasse um hit, que fosse!
Mas ele, que de bobo não tinha nada, ainda assim resolveu dar o seu melhor para criar um sucesso de público, que foi exatamente o que aconteceu. A própria música Let’s Dance era originalmente uma balada folk tocada no violão, que o produtor transformou com um arranjo cheio de groove, funk e disco.
MTV e o jogo do sucesso
Let’s Dance estourou junto com a MTV, que na época era considerada o ápice do “se vender para o sistema”, a materialização da “galeria” que Bowie viria a criticar. Só que muitos artistas simplesmente abraçaram o novo meio. O Dire Straits mesmo fez Money for Nothing (1985), uma música que zoava a própria MTV — narrada do ponto de vista de dois trabalhadores braçais reclamando dos “bundões” que ganham dinheiro tocando guitarra na TV. O clipe ganhou o Video of the Year da MTV, porque o canal entendeu a piada e ajudou a transformar a música no único número 1 do Dire Straits nos EUA.
Já o clipe de Let’s Dance foi filmado na Austrália com dois dançarinos aborígenes e dizia ser uma crítica ao tratamento dos povos nativos pelo capitalismo branco australiano. Os sapatos vermelhos que aparecem no clipe simbolizam o consumismo e a dominação. No final, os aborígenes pisoteiam os sapatos e os deixam apodrecendo no deserto. Bowie fecha o vídeo solando a guitarra com luvas brancas, mas na verdade era um então desconhecido Stevie Ray Vaughan — que não gostou da história das luvas e acabou sendo demitido da banda. Para Bowie, o clipe era coisa séria: “uma declaração muito direta contra o racismo e a opressão”.
Plastic soul
A crítica, por outro lado, não foi tão generosa com Let’s Dance. O álbum recebeu resenhas mornas — elogios para os singles, mas o resto foi chamado de “plastic soul sem graça” por Stephen Thomas Erlewine do AllMusic.
“Plastic soul” é um termo que o próprio Bowie tinha cunhado dez anos antes, para descrever seu álbum Young Americans (1975). No ano seguinte, ele explicou: “É o registro definitivo de plastic soul. São os restos esmagados da música étnica como ela sobrevive na era do Muzak, escrita e cantada por um inglês branco”. Ou seja, Bowie fez a jogada de se adiantar às críticas de apropriação cultural chamando a si mesmo de plástico antes que outros o fizessem.
Mas quando a crítica usou o termo contra Let’s Dance, não era um elogio, era uma acusação mesmo. De que estava fazendo “soul de mentira” para vender disco.
Ou seja, a pressão vem dos dois lados. Do mercado, que quer hits. Da crítica e dos pares, que pregam pureza artística. Ou você é artista, ou é comercial. Decida.
O arrependimento
O sucesso de Let’s Dance jogou Bowie em uma crise criativa que durou anos. Em 1987, ele tentou se distanciar do disco, dizendo que era “mais o álbum do Nile do que meu”. Rodgers discordou.
Bowie declarou que pensava no álbum como um experimento único. Mas o sucesso criou expectativas. Ele tinha acabado de assinar com uma nova gravadora, a EMI, por um contrato estimado em 17 milhões de dólares, e a pressão por um sucessor era gigante. O resultado foi Tonight (1984), considerado um dos pontos baixos da sua carreira. Depois veio Never Let Me Down (1987), mais do mesmo. Bowie chamaria esse período de “meus anos Phil Collins”.
Em 1997, quando deu a entrevista sobre “nunca tocar para a plateia”, ele também disse: “Na época, Let’s Dance não era mainstream. Era um híbrido, usando guitarra blues-rock contra um formato dance. Não tinha nada que soasse assim. Então, só parece comercial em retrospecto porque vendeu muito. Foi ótimo do seu jeito, mas me colocou em um beco sem saída porque fudeu com a minha integridade.” Para sair da sinuca artística, Bowie formou o Tin Machine, uma banda de rock experimental que confundiu fãs e críticos. Não foi um sucesso comercial, mas era Bowie experimentando de novo.
Sua carreira seguiu por mais de duas décadas, passando por álbuns aclamados como Outside (1995) e Heathen (2002), até Blackstar, lançado em 8 de janeiro de 2016 — seu 69º aniversário. Foi seu último ato artístico: dois dias depois, Bowie morreu de câncer. O álbum foi gravado em segredo enquanto ele lutava contra a doença.
Por isso, acho que a grande lição criativa de David Bowie é… faça o que você achar certo na hora e tudo bem. É errando que se aprende — e se acha o equilíbrio certo da carreira, artística ou não.
De resto, let’s dance.
Por hoje é só
Obrigado por ler até aqui. Se você curte esse tipo de reflexão sobre criatividade e cultura, nosso Clube de Cultura está lendo O Poder do Hábito, vai ser bem legal te ver por lá. E se quer usar IA de verdade no trabalho, com visão crítica, prática e sem ficar batendo palma para bilionário, dá uma olhada no IA em Curso, a comunidade de letramento em IA que criei com a Ana Freitas. Por fim, passa no Discord do Boa Noite Internet, que é onde a gente se encontra pra conversar sobre criatividade, cultura, mas na real sobre qualquer coisa que a gente estiver a fim.
Cuidem de si, cuidem dos seus. Até a próxima,
crisdias











