đ Ă fĂĄcil ser profeta do passado
Resumo comentado de âAs fontes do ruĂdoâ, capĂtulo 17 de âRuĂdo: Porque tomamos mĂĄs decisĂ”es e como podemos evitĂĄ-loâ.
Contamos histĂłrias para poder viver.
â Joan Didion
Entre as trĂȘs fontes de ruĂdo que o livro vinha separando â o juiz severo em tudo, o juiz com as manias sĂł dele, o dia em que ele acordou com o pĂ© esquerdo â, a que mais pesa Ă© a segunda. O capĂtulo 17 fecha a Parte IV de RuĂdo, pondo os nĂșmeros na mesa, onde o componente dominante Ă© o ruĂdo de padrĂŁo estĂĄvel, aquele que conhecemos no capĂtulo passado. Ă a reação particular de cada juiz a cada combinação de detalhes, a marca pessoal que se mantĂ©m igual com o tempo, e foi o que Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein quase deixaram passar.
Os nĂșmeros sĂŁo consistentes entre diferentes estudos. Na companhia de seguros do capĂtulo 2, as diferenças de severidade entre os corretores â uns que cobram caro em tudo, outros baratos em tudo â nĂŁo passavam de 20% do ruĂdo total. Os outros 80% eram ruĂdo de padrĂŁo, o jeito de cada corretor reagir a este cliente especĂfico. Entre os juĂzes federais foi a mesma histĂłria. E no estudo das decisĂ”es de fiança que apareceu lĂĄ no capĂtulo 10, em que os pesquisadores construĂram modelos de 173 juĂzes e os puseram para decidir mais de 24 milhĂ”es de casos, o ruĂdo de padrĂŁo estĂĄvel foi quatro vezes maior que o de nĂvel.
Isso tem uma consequĂȘncia prĂĄtica direta para quem faz gestĂŁo de pessoas. O ruĂdo de nĂvel Ă© o Ășnico que dĂĄ para medir sem montar uma auditoria inteira. Basta distribuir os casos ao acaso e comparar a mĂ©dia de cada profissional, que os extremos logo aparecem: quem aprova quase tudo de um lado, ou quem recusa quase tudo do outro. Foi assim que se descobriram grandes diferenças entre examinadores de patente e entre assistentes sociais decidindo se tiram ou nĂŁo uma criança da famĂlia. SĂł que ruĂdo de nĂvel Ă© o componente menos comum, como vimos acima. Se o ruĂdo de padrĂŁo Ă© o dobro ou o quĂĄdruplo disso, o problema real Ă© muito maior do que o nĂșmero que se consegue enxergar.
Entendido o tamanho, sobra a pergunta mais difĂcil de responder: com tanta evidĂȘncia acumulada sobre o ruĂdo, por que ele quase nunca Ă© citado quando se discute um julgamento errado?




