đ IA ou nĂŁo IA, eis a questĂŁo
Resumo comentado de âRegras sem ruĂdoâ, capĂtulo 10 de âRuĂdo: Porque tomamos mĂĄs decisĂ”es e como podemos evitĂĄ-loâ.
A necessidade do poder é óbvia, porque a vida não pode ser vivida sem ordem; mas a atribuição do poder é arbitråria porque todos os homens são iguais, ou quase.
â Simone Weil
No capĂtulo passado, vimos que uma planilha bĂĄsica, com pesos arbitrĂĄrios, costuma prever o desempenho de uma pessoa melhor do que um especialista que estudou anos para fazer aquele julgamento. O capĂtulo 10 pega essa visĂŁo e dobra a meta. Se a mĂ©dia ponderada jĂĄ bate o doutor, o que mais bate o doutor? E o que acontece quando a gente, em vez de simplificar, complica o modelo atĂ© o limite do que o computador aguenta?
Antes de seguir, vale destrinchar uma palavra que vamos usar muito hoje. Algoritmo, fora das redes sociais, nĂŁo Ă© essa entidade mĂstica que amamos odiar, sĂł quer dizer âreceitaâ, uma sequĂȘncia de passos para resolver uma tarefa. Bater claras em neve atĂ© o ponto firme Ă© algoritmo. âSe o molho ficar ralo demais, dissolva uma colher de maizena em ĂĄgua fria e devolva Ă panelaâ tambĂ©m Ă©, com direito a condicional if, then e tudo. Uma fĂłrmula de regressĂŁo linear Ă© um algoritmo. Uma regra prĂĄtica do tipo âse vai sair de casa e o cĂ©u estĂĄ fechado, leva guarda-chuvaâ Ă© algoritmo. E o monstro de um trilhĂŁo de parĂąmetros que escreve textos respondendo a um prompt tambĂ©m.
Vale ter essa variedade em mente, porque de alguns anos para cĂĄ, âIAâ virou um nome informal para uma parte muito especĂfica desses algoritmos â as LLMs, esses geradores de texto e cĂłdigo (e, esticando, de imagem e vĂdeo). IA, em sentido prĂłprio, Ă© qualquer sistema que aprenda padrĂ”es a partir de dados. O detector de spam do seu e-mail Ă© IA. O modelo que recomenda sĂ©ries e filmes na Netflix Ă© IA, assim como o algoritmo que prevĂȘ risco de fuga sob fiança, que o capĂtulo vai dissecar em breve. IA nĂŁo Ă© sĂł o Claude â e mesmo dentro desse grupo hĂĄ diferenças entre o âmodeloâ (GPT, Gemini, etc.) e a interface (ChatGPT, Claude Code, etc.)
Sendo assim, o capĂtulo monta um espectro. De um lado, simplicidade extrema. Regras tĂŁo bobas que dĂĄ vergonha de cobrar consultoria por elas. Do outro, complexidade extrema. Modelos de aprendizado de mĂĄquina que consomem milhĂ”es de tokens e detectam padrĂ”es que nenhum humano consegue enxergar. No meio, a mĂ©dia ponderada que jĂĄ tĂnhamos visto no capĂtulo 9. A tese do trio de autores Ă© que todo esse espectro, do mais simples ao mais sofisticado, costuma ser melhor do que o julgamento humano. Por motivos diferentes em cada extremo, mas com um motivo compartilhado pelos dois, de que nenhum algoritmo tem ruĂdo.




