Quando podemos ver e ouvir praticamente tudo, acabamos interessados em quase nada.
— E. B. White
O capitalismo resolveu o problema do tédio… e no lugar dele instalou a ansiedade e uma cultura em que tudo é entediante. É o que veremos no último texto extra desta edição, também o mais curto de todos: são 850 palavras na tradução, publicadas na revista irlandesa The Visual Artists’ News Sheet em julho de 2014.
Mark Fisher parte de Estamos todos muito ansiosos (We are all very anxious), ensaio do Instituto da Consciência Precária (ICP) que circulava naquele ano no site do coletivo Plan C — que, segundo o próprio site, é “uma organização comunista antiautoritária, construindo a autonomia dos movimentos e se organizando contra o capital e o poder do Estado”. Para o pessoal do ICP, cada fase do capitalismo tem seu afeto dominante. No fordismo, era o tédio — oito horas por dia repetindo a mesma tarefa na linha de produção. A esquerda tradicional nunca soube o que fazer com isso. Quem articulou uma política contra o tédio foram os situacionistas — a vanguarda de Guy Debord, que pregava levar a revolução para a vida cotidiana — e os punks, não os sindicatos nem os partidos.
Quem soube aproveitar a crítica ao tédio foram os neoliberais. Eles colaram a fábrica fordista — e, de quebra, a estabilidade e a segurança da social-democracia — na imagem do tédio, da previsibilidade e da burocracia.
No lugar disso, os neoliberais ofereciam emoção e imprevisibilidade. Mas a desvantagem dessas novas condições de fluidez é a ansiedade perpétua.




