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Resumo comentado de "Não há operadora central", capítulo 8 de "Realismo capitalista".
Eu não sou má. Só me desenharam assim.
— Jessica Rabbit (Gary K. Wolf)
Quando uma empresa ou órgão do governo falha, a culpa é do governo. Já quando uma empresa privada falha, a culpa… também é do governo! É dessa loucura que Mark Fisher chega à ideia que dá título ao capítulo: o capitalismo global não tem uma central de comando, um lugar onde a responsabilidade mora, e é justamente por isso que não paramos de procurar alguém para culpar.
O Estado babá, aquele apelido debochado do estado de bem-estar social, foi esfolado por décadas de neoliberalismo, mas o fantasma dele continua indispensável (assim como O fantaaasmaaa do comuniiismoooo 👻). Ele existe para ser culpado precisamente por não agir como o poder central que já não é — do mesmo jeito que o escritor Thomas Hardy vivia furioso com Deus por ele não existir.
Como observou James Meek em um artigo do London Review of Books acerca da privatização da água na Grã-Bretanha, “Repetidamente os governos conservadores e trabalhistas descobriram que quando dão poderes às empresas privadas, e essas empresas privadas vacilam feio, os eleitores culpam o governo, e não as empresas”.
No tal artigo, Meek conta a visita que fez à cidade inglesa de Tewkesbury um ano depois das inundações de 2007. A responsabilidade das empresas de água, privatizadas, e das construtoras que ergueram casas em área de alagamento era evidente, mas a bronca dos moradores era com o governo e a agência ambiental, por não terem impedido as construtoras.
A crise financeira de 2008 fez a mesma coisa no mundo inteiro, com os holofotes nos excessos individuais dos banqueiros e na resposta do governo, nunca nas causas sistêmicas.
Me irrita demais a maneira como as pessoas, mas principalmente a mídia, encaram erros na sociedade. Se o governo erra, é a prova da sua ineficiência, tem que privatizar. Se uma empresa erra, a culpa ainda assim é do governo, que não fiscalizou corretamente, que é corrupto, falho. O empresário corruptor é tratado como um caso isolado, um erro, não o sistema. Mas não é bug, é feature. Se um político erra, todo o seu partido ou a ideia de governo democrático é manchada. Se um empresário erra, ai ai ai, feio, mas todos os outros empresários não têm nada a ver com isso.




