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Resumo comentado de "Se pudéssemos observar a sobreposição de realidades distintas: o realismo capitalista como trabalho onírico e distúrbio de memória", capítulo 7 de "Realismo capitalista".
É uma memória bem pobre essa que só funciona para trás.
— Lewis Carroll
“Ser realista” já significou aceitar que o mundo é sólido, que as coisas são o que são. Tempos mais simples! No realismo capitalista, significa acompanhar uma realidade que se comporta como aquele documento digital em que nenhuma decisão é definitiva e qualquer versão pode ser sobrescrita a qualquer momento. Neste capítulo, Mark Fisher mostra que viver nesse regime exige uma habilidade específica, a de esquecer rápido e sem deixar cicatriz. E, de quebra, explica por que tudo — a música, a cafeteria descolada, o feed — anda tão parecido com tudo.
Fisher viu essa realidade elástica de perto no instituto de ensino onde dava aula, o mesmo das inspeções do capítulo anterior. O diretor de lá contava num dia, com toda a confiança, uma história otimista sobre o futuro da instituição, o que a inspeção significava, o que as instâncias superiores estavam achando. No dia seguinte, aparecia dizendo exatamente o contrário. E não era retratação, porque isso exigiria lembrar do que se disse. É como se ele simplesmente não tivesse registrado que a outra versão um dia existiu.
Isso, suponho, é o que se chama de “gestão competente”. E é também, muito provavelmente, a única maneira de permanecer são e em boa saúde em meio a instabilidade perpétua do capitalismo.
Fazer-se de doidinho, no fim das contas, é ser um bom gestor. Mas não é bagunça! O doidinho precisa acreditar um pouco na própria encenação. Por dentro, o diretor se via como um progressista saído dos anos 1960, que “não acredita realmente” no processo de auditoria. Por fora, cumpria cada exigência com diligência exemplar. E é esse desligamento entre o que se pensa e o que se faz que mantém tanta gente tocando um trabalho que considera sem sentido.




