Boa Noite Internet

Boa Noite Internet

Clube de Cultura Boa Noite Internet

📙 Somos responsáveis pelos nossos hábitos? — A neurologia do livre-arbítrio

Resumo comentado de "O poder do hábito", capítulo 9.

Avatar de crisdias
crisdias
fev 15, 2026
∙ Pago

Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu ‘destino’ não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo.
— Paulo Freire

Até que ponto somos responsáveis pelo que fazemos no piloto automático? Se um hábito nos leva a fazer algo terrível — algo que nunca faríamos de olhos abertos —, a culpa é nossa? Se a resposta muda dependendo do caso, o que isso diz sobre como a sociedade decide quem merece punição? E isso ajudaria a explicar a epidemia dos “tigrinhos” no Brasil?

Chegamos ao último capítulo de O poder do hábito, onde Charles Duhigg amarra tudo o que disse ao longo do livro. Para isso, coloca lado a lado duas histórias que descobriremos que, biologicamente falando, são quase idênticas, mas que a sociedade trata de maneira completamente diferente.

Um assassinato durante o sono

Em julho de 2008, Brian Thomas estava passando férias com a esposa Christine na costa do País de Gales. Na noite anterior, garotos tinham feito barulho no estacionamento e o casal mudou a van onde estavam de lugar. Horas depois, Thomas acordou e viu — ou achou que viu — alguém deitado em cima da esposa. Agarrou o pescoço do intruso e apertou até ele parar de se mexer.

Não havia intruso. Era Christine.

Thomas tinha um longo histórico de sonambulismo. Desde criança, perambulava pela casa e pelo quintal dormindo, acordava com cortes nos pés sem saber de onde tinham vindo — uma vez nadou num canal sem acordar. A esposa trancava a porta toda noite e dormia com as chaves embaixo do travesseiro. Os dois dormiam em quartos separados por precaução.

O que aconteceu naquela noite foi o que neurologistas chamam de terror noturno — que é diferente do sonambulismo comum. No sonambulismo, a pessoa pode agir de forma complexa, mas alguma parte do cérebro mais elevado ainda monitora o que acontece. É por isso que sonâmbulos costumam ser capazes de desviar de móveis, descer escadas sem cair e voltar para a cama sozinhos. Já no terror noturno, essa supervisão desaparece. As únicas partes do cérebro que funcionam são as mais primitivas, os chamados “geradores de padrões centrais” — as mesmas regiões que os cientistas do MIT identificaram como a sede do loop do hábito, como vimos no primeiro capítulo. O que sobra são os hábitos mais básicos da espécie: correr de uma ameaça e lutar contra um agressor.

Pessoas com terrores noturnos não estão sonhando no sentido normal. Não há enredos complexos como você e eu lembramos de um pesadelo. Se elas lembram de alguma coisa depois, é apenas uma imagem ou emoções — uma fatalidade iminente, um medo terrível, a necessidade de defender a si mesmas ou outra pessoa.

Thomas acreditou, no fundo mais primitivo do cérebro, que alguém estava atacando Christine. E reagiu como qualquer animal reagiria: lutou. Quando o “intruso” parou de se mexer, ele acordou.

O caso foi a julgamento. Os próprios peritos da acusação confirmaram que Thomas estava dormindo quando matou a esposa e que não tinha como prever que algo assim aconteceria. A promotoria acabou desistindo de buscar uma condenação. O juiz disse a Thomas: “Você é um homem decente e um marido devoto. Aos olhos da lei, você não carrega nenhuma responsabilidade.”

Thomas não é o único a ter passado por uma história assim. No último século, mais de 150 assassinos e estupradores escaparam à punição usando a defesa do “automatismo” — a alegação de que estavam inconscientes, seguindo um hábito, sem que as partes do cérebro responsáveis por decisões conscientes participassem do ato.

Uma herança na mesa de carteado

Angie Bachmann (pseudônimo de um caso real) começou a jogar por tédio. Com as três filhas crescidas e o marido fora o dia inteiro, seus dias eram longos e vazios. Numa quinta-feira, vestiu um vestido bonito, foi a um cassino flutuante no Iowa e passou duas horas aprendendo blackjack. Perdeu quarenta dólares, mas naquela noite, no jantar, pela primeira vez em semanas, teve assunto para conversar.

Avatar de User

Continue lendo este post gratuitamente, cortesia de crisdias.

Ou adquirir uma assinatura paga.
© 2026 crisdias · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de coleta
Comece seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura