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📙 Eu só quero um sonho para comprar (Realismo capitalista, o fim)

Resumo comentado do posfácio "Contra o cancelamento do futuro", prólogo de "Realismo capitalista".

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crisdias
ago 31, 2026
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Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.
— Paulo Freire

O livro acabou, mas a edição brasileira de Realismo capitalista ainda tem um último capítulo: o posfácio de Victor Marques, professor de filosofia da UFABC e editor da Jacobin Brasil, e Rodrigo Gonsalves, psicanalista e um dos tradutores do livro, que fazem sua versão dos resumos comentados que eu trouxe aqui durante o mês. Escrito em 2020, ele conta de onde Mark Fisher veio e para onde estava indo quando morreu — e, plot twist!, mostra que o guru intelectual da extrema direita do Vale do Silício saiu do mesmo grupinho universitário que formou Fisher.

Mas por que precisamos de um diagnóstico britânico de 2009 aqui e agora? O objeto de Fisher nunca foi o Reino Unido, foi o capitalismo neoliberal globalizado. O diretor Bong Joon-ho tentou fazer de Parasita um filme especificamente coreano e se surpreendeu quando as plateias reagiram igual em todo lugar, “talvez porque hoje vivemos todos em um mesmo país, chamado capitalismo”. Esse país é o cenário do livro que acabamos de ler. E Marques e Gonsalves leem da esquerda organizada, sem fingir neutralidade, querendo usar Fisher, não só explicá-lo.

Fisher nasceu em 1968 numa região operária da Inglaterra e era adolescente quando Margaret Thatcher quebrou a espinha do sindicalismo britânico. O dia em que os mineiros voltaram derrotados ao trabalho, em 1985, depois de mais de um ano de greve, era uma lembrança que trinta anos depois ele dizia não conseguir evocar sem lágrimas. Só que o mesmo mundo que morria ali tinha formado Fisher no que ele batizou de modernismo popular, uma ecologia cultural em que imprensa musical independente, rádio pública e pós-punk funcionavam como universidade informal da classe trabalhadora. Fisher gostava de contar que leu sobre Derrida e Baudrillard pela primeira vez numa revista de crítica de rock. É a morte dessa cultura popular esquisita e instigante, financiada indiretamente pelo Estado de bem-estar social, que ele passa a vida lamentando — primeiro aqui, depois em Fantasmas da minha vida.

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