Boa Noite Internet

Boa Noite Internet

Clube de Cultura Boa Noite Internet

📙 6 de outubro de 1979: o dia em que o emprego morreu

Resumo comentado de "6 de outubro de 1979: não se apegue a nada", capítulo 5 de "Realismo capitalista".

Avatar de crisdias
crisdias
ago 11, 2026
∙ Pago
1bcbe981.webp

As cabeças levantadas
Máquinas paradas
Dia de pescar
— Novelli e Chico Buarque, Linha de montagem

O mundo do trabalho em que vivemos hoje nasceu num sábado, 6 de outubro de 1979. Neste capítulo, Mark Fisher sai da sala de aula para contar o que a economia fez naquele dia e acaba explicando por que quase meio milhão de brasileiros se afastaram do emprego por transtorno mental em 2024.

Fisher dessa vez usa como ferramenta Fogo contra fogo, filme de 1995 de Michael Mann. Numa lanchonete de beira de estrada, o chefe de quadrilha Neil McCauley, vivido por Robert De Niro, explica seu código ao detetive de Al Pacino:

Um cara me disse uma vez, não se apegue a nada que você não possa largar em trinta segundos ao sentir que a chapa está esquentando.

Fisher contrasta a quadrilha do filme com as de O poderoso chefão e de Os bons companheiros para mostrar duas eras do capitalismo. Os mafiosos de Coppola e Scorsese estão presos a um território e a vinganças que atravessam gerações, e até o sobrenome Corleone é o nome de um vilarejo. Já McCauley é um nome de passaporte falso, sem história, numa Los Angeles de rodovias e franquias idênticas, e o bando dele funciona mais como um grupo de acionistas, unido enquanto houver dividendo à vista. É por isso que McCauley provoca o detetive perguntando como ele pretende manter um casamento, se vai ter de se mudar toda vez que o ladrão se mudar.

(A cena da lanchonete é histórica: foi a primeira vez que De Niro e Pacino contracenaram na vida. Os dois estão em O poderoso chefão 2, mas em linhas do tempo diferentes, sem nunca dividir uma cena, foram 21 anos até este encontro acontecer.)

Quem descreveu o mesmo padrão fora do cinema foi o sociólogo estadunidense Richard Sennett, em A corrosão do caráter, de 1998, cujo lema é “não há longo prazo”. Antes se aprendia um ofício e, a partir daí, se subia numa hierarquia, agora se aprende novas habilidades a cada troca de emprego, sob o belo nome de flexibilidade. Como disse Sennett:

Os valores dos quais esse tipo de vida depende — confiança, compromisso, o cumprimento do dever — são precisamente aqueles considerados obsoletos no novo capitalismo.

Avatar de User

Continue lendo este post gratuitamente, cortesia de crisdias.

Ou adquirir uma assinatura paga.
© 2026 crisdias · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de coleta
Comece seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura