📙 Como encontrar o ponto certo da confiança
Resumo comentado de "Pense de novo", capítulo 2, "O jogador de araque e o impostor".
É mais comum a ignorância produzir confiança do que conhecimento.
— Charles Darwin
No fim dos anos 1800, na Áustria, uma costureira de 50 e poucos anos chamada Ursula Mercz chegou a uma clínica reclamando de enxaquecas e tontura. Ao longo das semanas, piorou. Não encontrava o copo de água na mesa de cabeceira, dava com a canela na cama, não achava a porta do quarto. O médico Gabriel Anton ficou intrigado porque, nos testes, ela ainda conseguia apontar para o nariz, descrever a própria casa, cortar formas no papel. Mas quando ele erguia um objeto e pedia que descrevesse, Ursula nem olhava — estendia a mão para pegar. A visão dela estava gravemente comprometida e, depois, se foi por completo. Só que Ursula insistia que enxergava. Anton escreveu que era “extremamente aterrador” que a paciente não percebesse sua própria cegueira.
Hoje a medicina chama isso de síndrome de Anton — ou Anton-Babinski, dependendo do idioma. Grant usa só “Anton”, como faz a literatura em inglês. Em português, o nome inclui Joseph Babinski, neurologista franco-polonês que, em 1914, cunhou o termo anosognosia. Seja lá o nome, esta síndrome é a incapacidade de perceber o próprio déficit neurológico. Anton descreveu os casos, Babinski deu nome ao mecanismo. É um déficit de autopercepção em que a pessoa ignora uma deficiência física sem apresentar nenhum outro problema cognitivo. Grant usa o caso para propor que, mesmo com a mente funcionando, todos nós estamos vulneráveis a uma versão dessa síndrome. Temos pontos cegos no nosso conhecimento e nas nossas opiniões, e esses pontos cegos podem nos cegar para a própria cegueira.
Gostei desse capítulo, hein? Porque eu me reconheço nele, kkkkkkrying. Tem dias em que acho que não sei nada e dias em que acho que já sei tudo e não preciso perder tempo aprendendo mais — e que as outras pessoas em volta não conseguem compreender minha genialidade, cof cof. Grant mostra que essas duas pontas têm nome, têm pesquisa, têm consequência e que o segredo está em encontrar o meio do caminho entre elas.
O araque e o impostor
O podcast do Boa Noite Internet já falou de síndrome do impostor — com minha amiga Nathalia Ceneviva — e sobre Dunning-Kruger, com uma das minhas histórias favoritas da psicologia, a do cara que achou que passar limão na cara ia deixá-lo invisível para câmeras de segurança. Os dois episódios são de 2019, antes da pandemia, tempos mais simples! Por acaso, ou não, foram publicados na sequência, episódios 14 e 15. Grant faz a mesma coisa neste capítulo, e para mostrar os dois fenômenos, conta duas histórias islandesas.
A primeira é a de Halla Tómasdóttir. Em dezembro de 2015, o teto da casa dela desabou por causa da neve enquanto um amigo ligava para contar que alguém tinha lançado uma petição online pedindo que ela se candidatasse à presidência da Islândia. A primeira coisa que Halla pensou foi: quem sou eu para ser presidente? Ela tinha cofundado uma empresa de investimentos que sobreviveu à catástrofe financeira de 2008 — quando os três principais bancos do país faliram e a moeda entrou em colapso —, mas nunca tinha atuado no governo. Resistiu por meses. Tentou convencer outras mulheres a concorrer.
Do outro lado estava Davíð Oddsson. Como primeiro-ministro de 1991 a 2004, privatizou os bancos islandeses. Depois, como presidente do Banco Central, permitiu que o balanço das instituições inflasse a dez vezes o PIB do país. Quando a população protestou, ele se recusou a sair e teve que ser destituído pelo Parlamento. A revista Time o incluiu entre as 25 pessoas culpadas pela crise financeira mundial. Mesmo assim, em 2016, anunciou sua candidatura à presidência, dizendo que sua experiência e conhecimento, “que são consideráveis”, poderiam ser valiosos para o cargo.
Na teoria, autoconfiança e competência andam de mãos dadas. Na prática, é comum que se afastem.




