Casey Neistat e o melhor vídeo sobre IA que não fala de IA
Hábitos, trabalho e as mentiras que escutamos sobre tecnologia.
Somos aquilo que repetidamente fazemos. Excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.
— Aristóteles
Falar de IA no Substack é perigoso. É a “rede social” onde eu vejo posts do tipo “falou que usa IA, é block automático”. Tá, eu sei que IA em um moooonte de questões, que passam até por consentimento. Mas é como disse o Ted Chiang quando eu o entrevistei: a maioria dos medos da tecnologia é melhor compreendida como medos de como o capitalismo usa a tecnologia contra nós.
Eu torço o nariz para quem aborda o assunto IA como se quem usa IA quisesse substituir o trabalho criativo, como escrever essa newsletter aqui, por exemplo. Para mim, mostra que a pessoa nunca sentou para usar de verdade. Deve ter aberto o ChatGPT, digitado algum prompt e dito “Humpf! Isso não é criativo!”
Eu sei que não é criativo — e não preciso que seja.
Casey Neistat já foi o maior youtuber do mundo, até chegar o MrBeast. O sucesso veio pela qualidade absurda de edição e produção dos seus “vlogs”. Enquanto todo mundo ficava só falando para a câmera, Casey montava objetos manualmente para explicar conceitos, andava por Nova Iorque de skate motorizado, fazia tomadas de drone… E isso em vídeos diários!!! Exagerando só um pouco, ele sozinho foi responsável por toda a venda de tripés dobráveis nos anos 2010. Casey vendeu muito bem o sonho de ficar milionário falando da própria vida.
Anos atrás, fui atrás de alguma entrevista onde ele falasse do processo de trabalho, só para confirmar que, realmente, ele não tinha vida além dos vídeos. Trabalhava até literalmente cair de sono no sofá e, entre ideia, gravação e edição, trabalhava mais de 14 horas por dia, sete dias por semana.
Deu certo, ele virou um sucesso, fez milhões, foi a proverbial capa de revista, vendeu sua startup para a CNN por US$ 25 milhões… e teve um burnout. Nossa, quem poderia imaginar? Não dava pra saber!!!
Quando penso em Casey Neistat — um cara que admiro, é importante reforçar — é normalmente com essa lente de “se você quer entrar na órbita do sucesso, vai precisar gastar muito combustível emocional”. Já que eu não estou disposto a pagar esse preço, nunca vou ser um sucesso. E tá tudo bem. (Ou deveria estar, perguntem para minha família.)
Como sempre acontece no YouTube, um belo dia, Casey Neistat sumiu da minha home do site. O mesmo aconteceu com seu irmão, Van, que eu já citei algumas vezes aqui na newsletter e com quem eu me identifico mais, pela idade e personalidade mais introvertida, cientista maluco trancado no laboratório da garagem, só que do audiovisual.
Até que semana passada o YouTube resolveu trazê-lo de volta para minha home (obrigado, algoritmo) em um vídeo com o enigmático título “Navigating the matrix”.
Este é o melhor vídeo sobre “como usar IA no trabalho” que você vai ver. Mas em nenhum momento ele menciona IA. Não é um “vídeo sobre IA”. Mas é um vídeo sobre IA.
Um dos episódios mais lembrados do Boa Noite Internet, que até hoje alguém vem falar comigo, é “O trabalho não é o trabalho”, onde conto da epifania que tive quando assisti a um vídeo de 2010 sobre as regras do estúdio do artista plástico Tom Sachs. Em uma das regras, chamada “Seja minucioso”, eu me dei conta de que a tarefa de “soldar um fio” na verdade envolvia uma dezena de outras tarefas e que, portanto, “ser soldadora de fios” como Elsa, a personagem do vídeo, não era o verdadeiro trabalho dela — era preparar a mesa, limpar tudo depois, avisar ao cara do almoxarifado que a solda está acabando, mas também tratar os coleguinhas com respeito, chegar no horário, etc. Ela pode ser a melhor soldadora de fios do mundo, mas se não fizer todas as outras coisas não vai muito longe na carreira. Só que — essa parte eu acho que não está no podcast — quanto mais jovem a gente é, mais tende a achar que “ser uma baita soldadora” é o bastante. Já trabalhei com gente que achava que isso justificava não ser legal com os coleguinhas. O famoso “cuzão que entrega”.
Do mesmo jeito que Elsa, meu trabalho não é digitar essas palavras aqui no meu editor de texto, é ler, pesquisar, organizar tudo, mas também entrar no portal de fornecedores do Sebrae-MG para cadastrar a nota fiscal da minha palestra sobre storytelling.
Ah! O tal vídeo com as regras do estúdio que inspirou meu podcast foi feito por quem? Van Neistat. Coincidência? Acho que não.
O trabalho não é o trabalho
Boa noite internet. Boa noite Brasil. Neste episódio mergulhamos no coração de uma verdade inconveniente: o trabalho não é realmente aquilo que achamos que é. Com uma mistura de inveja saudável, reflexões à beira-mar e insights de um estúdio de arte em Nova Iorque, desvendamos as camadas ocultas que compõem nossas carreiras. Descubra por que ser um pilo…
Mas voltemos ao vídeo do Casey, lançado no fim de março de 2026. De certa maneira, ele é sua versão de “O trabalho não é o trabalho”. De um jeito muito mais legal, cinematográfico — e curto —, ele divide seu “trabalho” em uma matriz (a tal que ele vai sobreviver, do título), organizada em eixos de “produtivo / improdutivo” e “quero fazer / não quero fazer”.
O quadrante vermelho (improdutivo, mas quero fazer) tem “coisas que eu quero fazer, mas não devia fazer de jeito nenhum”. É lá que está “ficar no Twitter” e “jogar videogame” ou “ter uma conversa filosófica empolgante com meu amigo que fica no escritório ao lado”. Eu sinto que estas são as coisas que digo para mim mesmo que passaria o dia fazendo se eu fosse bilionário — mesmo sabendo que isso não necessariamente é verdade, mas esse não é o tema de hoje.
A parte amarela (improdutivo, não quero fazer) deveria ser a parte onde nunca vamos, certo? Ha ha ha. Tolo mortal.
Lá é onde fica a “procrastinação produtiva”. As coisas totalmente inúteis, como recabear o estúdio, que não precisavam ser feitas, mas que, como são meio automáticas e não demandam lá muita criatividade, a gente pega para fazer. O importante desse quadrante é que as coisas têm cara de produtivas, elas acendem luzinhas “parabéns, olha quanta coisa você fez hoje!”. Nada, eu não fiz nada. “Essa louça não vai se lavar sozinha”, o que é verdade, mas não contribui com o “trabalho”, a coisa que eu devia estar realmente fazendo.
Que está no verde (produtivo, quero fazer) o trabalho que é o trabalho. Para o Casey Neistat, é escrever um roteiro, filmar o roteiro e editar essa filmagem. Repare que não tem muita coisa no quadrado verde. A gente sabe o que é esse trabalho, mas evita, inventa desculpas, deixa para depois, provavelmente porque é preciso “colocar a locomotiva em movimento”, como eu costumo dizer, vencer a inércia criativa. E, por isso, ficar dizendo coisas como “eu ainda não tenho a ideia formada na minha cabeça, amanhã eu volto”.
É para vencer esse tipo de pensamento que caras como Casey Neistat se colocam em situações como “eu vou fazer um vídeo por dia, todo dia, por um ano”. Porque quem diz “eu vou fazer um post de newsletter sempre que eu tiver uma ideia legal” nunca faz um post de newsletter. (Estou me olhando no espelho agora.)
No quadrante verde moram todas as coisas que, na mente de um jovem sonhador, é o que uma profissão “significa”. É o nosso diferencial, o valor agregado e também como vamos “mudar o mundo”, mesmo que nosso trabalho seja de, sei lá, auditor contábil. Eu vou ser o melhor auditor contábil do mundo fazendo as coisas do quadrante verde.
Me parece que o Casey fez o vídeo para dizer “se o que você menos faz é o verde, tudo bem. Você não está maluco sozinho.”
Então tem a parte azul, as coisas que “são produtivas, mas parecem um desperdício de tempo”. Eu chamo de tarefinha. Coisas como responder a um pedido de proposta de um cliente estão muito nesse quadrante. Se eu não responder a esse e-mail, eu não vou ser pago para fazer os projetos do quadrante verde! (Inclusive, tem uma proposta que eu já estou atrasado, droga!)
Ainda assim, eu (e você, e o Casey) não queremos fazer isso, porque parece tempo jogado fora quando eu deveria estar fazendo outras coisas importantes. Como escrever roteiros ou… lavar a louça. A louça não vai se lavar sozinha!!!
É claro que é auto-sabotagem, mas lembre-se: todo mundo faz isso. Você não está maluco sozinho.
Eu quero que você assista ao vídeo, então eu não vou entregar tudo que ele diz, mas uma parte importante é que o único quadrante onde a gente tem “algo para mostrar”, o famoso “corpo do trabalho”, é o verde. O resto também é trabalho, não dá para só fazer o verde sem todo o resto (especialmente o azul), mas ninguém chega no fim do dia lembrando quantos e-mails respondeu. Só que, como eu espero ter dito no episódio do podcast, “o trabalho não ser o trabalho” significa exatamente isso. Todo mundo acha que a parte mais importante de ser piloto de corridas significa sentar em um carro, pisar no acelerador, girar o volante, passar a marcha… Mas não! A parte mais importante tem mais a ver com “jantar com o patrocinador para ele ficar feliz e continuar me dando dinheiro”.
Tá, mas o que tudo isso tem a ver com IA?
Foi isso que tentei mostrar no começo deste ensaio. Eu ainda vejo muita gente achando que a IA entra no quadrante verde. Que eu vou apertar um botão e vai sair este texto aqui e que, assim, eu vou conseguir fazer 10 por dia em vez de um por semana (e olhe lá, kkkkkkrying). Sem dúvidas, uma parte muito grande de gente que pensa assim na verdade é quem contrata as pessoas que fazem o “quadrante verde”. Oba, eu não preciso mais contratar o Cris para escrever e dirigir o podcast da minha empresa, o ChatGPT escreve pra mim. (Vai lá, eu te espero aqui.)
Conheço algumas pessoas que são abertamente “contra IA”, mas acabam dizendo que usam IA quase todo dia. Enfim, a hipocrisia? Não. Elas usam a IA nos quadrantes amarelo e azul, mas na hora de “se posicionar” sobre o assunto agem como se IA fosse tudo. (Afinal de contas, vivemos em um momento da história em que opinião e identidade se confundem.)
Por preocupação com possíveis usos maliciosos da tecnologia, decidimos não liberar o modelo treinado. Como experimento de divulgação responsável, estamos disponibilizando apenas uma versão bem menor do modelo para que pesquisadores possam experimentar, junto com um paper técnico.
A declaração acima é de 2019, sobre o GPT-2, ainda alguns anos antes da chegada do ChatGPT. Ou seja, as empresas de IA têm essa mania de prometer um monte de coisas que beiram o estapafúrdio. A imprensa tende a focar suas críticas nestas partes. Há anos escutamos a história de curas milagrosas ou capacidades de raciocínio sobre-humano. O pessoal da Anthropic costuma postar coisas como “estava conversando com o Claude e fiquei chocado”. Funcionários se demitindo para viver no meio do mato contemplando a vida, ou o pesquisador do Google que afirmou que a IA com quem ele conversava estava viva, em 2022. Nada disso fica de pé quando chega ao mundo real, mas é muito valioso para as empresas de IA conseguirem os trilhões para manter suas operações deficitárias rodando.
Eu não estou interessado nestas histórias ou poderes. Eu não quero que ela escreva roteiros ou newsletters pra mim, porque essa é a parte que eu quero fazer. Aqui estou, literalmente agora, digitando essas palavras na minha tela e pensando “Meu Deus, como eu adoro fazer isso!!!”. Eu demorei dois dias escrevendo este artigo e foram os melhores dias da semana.
Por que eu vou ser maluco de automatizar esse trabalho?
Meu uso de IA está nos outros quadrantes. Escrever quatro e-mails avisando para as pessoas que vai ter mentoria ao vivo do IA em Curso — mas decidir o tema da mentoria é comigo e com a Ana. Pesquisar declarações de alguém que eu vá entrevistar — mas escolher o que eu vou perguntar é comigo. Responder o e-mail de proposta (assim que eu acabar aqui, eu juro!) — mas ter a ideia é comigo.
Só que, veja bem, o que está em cada quadrante muda não só de profissão para profissão, mas também para cada indivíduo. Semanas atrás, a Wired fez uma matéria muito boa sobre como os jornalistas que cobrem tecnologia usam o Claude no seu trabalho e a resposta é a melhor possível. Entrevistaram seis pessoas e encontraram seis maneiras diferentes, porque para um o “quadrante verde” é encontrar os furos de notícia, para outro é analisar e colocar sua visão pessoal. A IA entra para permitir que estas pessoas façam “mais verde, menos azul”, mas são elas que decidem o que vai em cada quadrado.
A IA é só uma ferramenta, como o Excel ou o carrinho de mão. Mesmo que seus maiores fãs e detratores digam o contrário.
Por hoje é só
Se tudo isso aqui despertou alguma coisa em você, tem alguns lugares onde você pode continuar a conversa. No Clube de Cultura segunda-feira, a gente revela o próximo livro — histórias que te fazem pensar sobre exatamente essas coisas. Se o que te interessa é entender como usar IA sem se tornar fanboy de bilionário, a gente tem um espaço para isso: o IA em Curso, que criei com a Ana Freitas especialmente para quem quer visão crítica e não hype. E claro, tem sempre o Discord — lá é onde a gente respira junto sobre criatividade, cultura, e qualquer outra coisa que vier.
Cuidem de si, cuidem dos seus. Até a próxima,
crisdias







