📙 Tem que acabar a mudança
Resumo comentado de "Impotência reflexiva, imobilização e comunismo liberal", capítulo 4 de "Realismo capitalista".
O que é felicidade? É o instante antes de precisar de mais felicidade.
— Andre e Maria Jacquemetton
Por que a geração que sabe exatamente o que há de errado com o mundo é a que menos consegue reagir?
Como vimos no final do resumo anterior, Mark Fisher passou quase toda a primeira década dos anos 2000 trabalhando num instituto de educação continuada inglês, o laboratório onde as reformas neoliberais da educação foram testadas antes de se espalharem pelo resto dos serviços públicos. Aqui fica claro o impacto que esse trabalho teve na sua visão de mundo, observando os alunos descerem a espiral do realismo capitalista na sua frente. E de 2009 para cá, a tal espiral só desceu mais ainda.
Fisher trabalhou no instituto dos 30 e poucos aos 40 anos e publicou o livro em 2009, aos 41, com idade de sobra para virar aquele velho que chama a nova geração de incompetente e preguiçosa. Só que ele vai pelo caminho inverso, e onde muita gente apontaria apatia ou cinismo, ele vê que os alunos sabem muito bem o tamanho da encrenca e nem por isso se mexem. É a impotência reflexiva.
No entanto, este “conhecimento”, esta reflexão, não é uma observação passiva de um estado das coisas já existente. É uma profecia autorrealizável.
Ele contrasta seus alunos com os estudantes franceses, que naquela época ainda iam para a rua queimar carros. No Brasil, o retrato fica pior, porque protestar contra o neoliberalismo virou coisa de burguês com boné do MST (eu tenho um, mas minha filha se apropriou dele), e vivemos a era do “jovem de direita”. Numa pesquisa da Quaest feita no início de 2025 com cerca de 10 mil brasileiros, os homens de 16 a 24 anos são a faixa que mais se identifica com o bolsonarismo, 42%, mais do que qualquer geração acima deles.
No instituto de Fisher, a depressão era endêmica, e impressionava o número dos que tinham algum nível de dislexia — “não é exagero dizer que ser um adolescente no capitalismo tardio da Grã Bretanha está se tornando praticamente uma condição clínica”. Na hora em que um problema é atribuído ao desequilíbrio químico de um cérebro ou à família daquele adolescente específico, a pergunta sobre a causa social já foi descartada antes mesmo de ser feita. O sofrimento vira caso isolado — e caso isolado não se organiza politicamente. Você que lute.
Ele chama o que sobra depois disso de hedonia depressiva.




