Ă o ambiente que causa o mau comportamento. Se vocĂȘ quer que a criança mude, tem que olhar para todo o ambiente.
â Jo Frost
A esquerda precisa ser como uma babĂĄ de reality show e dizer nĂŁo. Ă assim que Mark Fisher encerra a parte âoficialâ do livro â como foi lançado em 2009 â no capĂtulo que funciona como conclusĂŁo e, pela primeira vez, com propostas do que fazer.
Supernanny estreou no Canal 4 britĂąnico em 2004, com a babĂĄ Jo Frost entrando em famĂlias em colapso e reorganizando a casa em uma semana. O Brasil teve a sua versĂŁo no SBT, com a pedagoga Cris Poli, de 2006 a 2014, e quem assistiu conhece o formato: a criança Ă© tirana, mas o problema de verdade estĂĄ nos pais, que cedem a toda exigĂȘncia para ter paz no curto prazo e sĂł conseguem ter uma casa cada vez mais infeliz. Fisher chama o programa de espinozista, por conta do filĂłsofo holandĂȘs Baruch Espinosa, que, no sĂ©culo 17, partia da ideia de que ninguĂ©m nasce sabendo o prĂłprio interesse â o grande insight da Supernanny sobre as crianças.
Uma Supernanny marxista, claro, deveria se concentrar menos em remediar uma famĂlia por vez para focar mais nas causas estruturais que produzem o mesmo efeito repetidamente.
A causa estrutural, para Fisher, Ă© que o capitalismo tardio precisa que desejo e interesse sejam a mesma coisa. A paternidade tradicional existia justamente para separar as duas, na figura do pai que diz ânĂŁo Ă© porque vocĂȘ quer que vocĂȘ deveâ. Numa cultura em que o dever paterno foi engolido pelo imperativo de gozar, pais que impĂ”em limites sentem-se como se estivessem fracassando na criação das crianças. E quando o casal precisa trabalhar fora e vĂȘ as crianças por poucas horas, ninguĂ©m quer gastar esse tempo sendo O Chato. O mesmo vale para a produção cultural, que sĂł oferece ao pĂșblico o que ele aparentemente jĂĄ quer. Fisher sabe que nĂŁo dĂĄ para voltar ao pai austero (que dava surra de cinto), nem Ă BBC de 1930 falando de cima para baixo â isso nem seria desejĂĄvel. O que ele procura Ă© um paternalismo sem pai.
Slavoj ĆœiĆŸek argumenta em Tarrying with the Negative (sem tradução no Brasil, algo como âpermanecendo com o negativoâ) que a ideologia do capitalismo tardio Ă© um certo espinozismo. Isso por conta da leitura que o filĂłsofo holandĂȘs de origem portuguesa Baruch Espinosa fez do pecado original. Na versĂŁo tradicional, Deus proĂbe a maçã porque comer Ă© errado, e ponto. âNĂŁo porque nĂŁo.â Na leitura que Espinosa faz na Ătica, publicada em 1677, Deus apenas avisa AdĂŁo que a fruta vai lhe fazer mal. Parece sĂł um detalhe, mas substitui uma moral de regras, a deontologia â que a gente jĂĄ viu no episĂłdio sobre The Good Place â, por uma Ă©tica de saĂșde, onde nada Ă© errado porque o papai disse, o papai sĂł diz que Ă© errado porque faz mal. Para ĆœiĆŸek, isso elimina a figura do pai que proĂbe e funciona perfeitamente num capitalismo que nĂŁo precisa proibir nada, sĂł administrar o que nos faz bem ou mal. Fisher atĂ© aceita o diagnĂłstico, mas recusa a conclusĂŁo, porque o mesmo Espinosa entende o vĂcio como o estado normal do ser humano, preso a comportamentos repetitivos e a imagens congeladas de si e do mundo.
A liberdade, mostra Espinosa, Ă© algo que sĂł pode ser alcançada quando somos capazes de reconhecer as causas reais de nossas açÔes, quando podemos deixar de lado as âpaixĂ”es tristesâ que nos intoxicam e entorpecem.




