Boa Noite Internet

Boa Noite Internet

Clube de Cultura Boa Noite Internet

📙 Supernanny versus Neymar HipotĂ©tico

Resumo comentado de "Supernanny marxista", capĂ­tulo 9 de "Realismo capitalista".

Avatar de crisdias
crisdias
ago 22, 2026
∙ Pago
60969bf0.webp

É o ambiente que causa o mau comportamento. Se vocĂȘ quer que a criança mude, tem que olhar para todo o ambiente.

— Jo Frost

A esquerda precisa ser como uma babá de reality show e dizer não. É assim que Mark Fisher encerra a parte “oficial” do livro — como foi lançado em 2009 — no capítulo que funciona como conclusão e, pela primeira vez, com propostas do que fazer.

Supernanny estreou no Canal 4 britĂąnico em 2004, com a babĂĄ Jo Frost entrando em famĂ­lias em colapso e reorganizando a casa em uma semana. O Brasil teve a sua versĂŁo no SBT, com a pedagoga Cris Poli, de 2006 a 2014, e quem assistiu conhece o formato: a criança Ă© tirana, mas o problema de verdade estĂĄ nos pais, que cedem a toda exigĂȘncia para ter paz no curto prazo e sĂł conseguem ter uma casa cada vez mais infeliz. Fisher chama o programa de espinozista, por conta do filĂłsofo holandĂȘs Baruch Espinosa, que, no sĂ©culo 17, partia da ideia de que ninguĂ©m nasce sabendo o prĂłprio interesse — o grande insight da Supernanny sobre as crianças.

Uma Supernanny marxista, claro, deveria se concentrar menos em remediar uma famĂ­lia por vez para focar mais nas causas estruturais que produzem o mesmo efeito repetidamente.

A causa estrutural, para Fisher, Ă© que o capitalismo tardio precisa que desejo e interesse sejam a mesma coisa. A paternidade tradicional existia justamente para separar as duas, na figura do pai que diz “nĂŁo Ă© porque vocĂȘ quer que vocĂȘ deve”. Numa cultura em que o dever paterno foi engolido pelo imperativo de gozar, pais que impĂ”em limites sentem-se como se estivessem fracassando na criação das crianças. E quando o casal precisa trabalhar fora e vĂȘ as crianças por poucas horas, ninguĂ©m quer gastar esse tempo sendo O Chato. O mesmo vale para a produção cultural, que sĂł oferece ao pĂșblico o que ele aparentemente jĂĄ quer. Fisher sabe que nĂŁo dĂĄ para voltar ao pai austero (que dava surra de cinto), nem Ă  BBC de 1930 falando de cima para baixo — isso nem seria desejĂĄvel. O que ele procura Ă© um paternalismo sem pai.

Slavoj ĆœiĆŸek argumenta em Tarrying with the Negative (sem tradução no Brasil, algo como “permanecendo com o negativo”) que a ideologia do capitalismo tardio Ă© um certo espinozismo. Isso por conta da leitura que o filĂłsofo holandĂȘs de origem portuguesa Baruch Espinosa fez do pecado original. Na versĂŁo tradicional, Deus proĂ­be a maçã porque comer Ă© errado, e ponto. “NĂŁo porque nĂŁo.” Na leitura que Espinosa faz na Ética, publicada em 1677, Deus apenas avisa AdĂŁo que a fruta vai lhe fazer mal. Parece sĂł um detalhe, mas substitui uma moral de regras, a deontologia — que a gente jĂĄ viu no episĂłdio sobre The Good Place —, por uma Ă©tica de saĂșde, onde nada Ă© errado porque o papai disse, o papai sĂł diz que Ă© errado porque faz mal. Para ĆœiĆŸek, isso elimina a figura do pai que proĂ­be e funciona perfeitamente num capitalismo que nĂŁo precisa proibir nada, sĂł administrar o que nos faz bem ou mal. Fisher atĂ© aceita o diagnĂłstico, mas recusa a conclusĂŁo, porque o mesmo Espinosa entende o vĂ­cio como o estado normal do ser humano, preso a comportamentos repetitivos e a imagens congeladas de si e do mundo.

A liberdade, mostra Espinosa, Ă© algo que sĂł pode ser alcançada quando somos capazes de reconhecer as causas reais de nossas açÔes, quando podemos deixar de lado as “paixĂ”es tristes” que nos intoxicam e entorpecem.

Avatar de User

Continue lendo este post gratuitamente, cortesia de crisdias.

Ou adquirir uma assinatura paga.
© 2026 crisdias · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de coleta
Comece seu SubstackObtenha o App
Substack Ă© o lar da grande cultura