đ Quero falar com o gerente!
Resumo comentado de âDignidadeâ, capĂtulo 27 de âRuĂdo: Porque tomamos mĂĄs decisĂ”es e como podemos evitĂĄ-lo".
No reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode-se pÎr em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa estå acima de todo preço, e não permite equivalente, então ela tem dignidade.
â Immanuel Kant
Semana final de RuĂdo, a dĂ©cima sĂ©tima temporada do Clube de Cultura do Boa Noite Internet. Onde estamos? Ah sim, vocĂȘ quer reduzir o ruĂdo, Ă© isso? Justiça, um sistema sem falhas, praticamente matemĂĄtico, que nĂŁo favorece (nem desfavorece) ninguĂ©m. Cego, como a famosa estĂĄtua. EntĂŁo nĂŁo deve se importar com as seguintes situaçÔes, totalmente hipotĂ©ticas, assim espero.
O banco negou seu financiamento sem que ninguĂ©m abrisse a sua ficha, porque uma regra proĂbe emprestar para quem tem um score do Serasa
como o seu. O empregador saiu impressionado com o seu currĂculo, mas a empresa nĂŁo contrata quem tem antecedentes criminais, e aquela condenação por posse de maconha quinze anos atrĂĄs apareceu na sua ficha. Um algoritmo calculou que pessoas com o seu perfil tĂȘm risco de fuga acima do limite, e a fiança foi negada sem que nenhum humano olhasse o processo.
Regras sĂŁo regras, desculpe.
Se vocĂȘ for como eu, vai querer sempre alguĂ©m de carne e osso examinando as nossas circunstĂąncias â eu quero falar com o gerente! Ă assim que muita gente topa âpagar em ruĂdoâ por esse direito. Esta Ă© a objeção que faltava sobre sistemas de redução de ruĂdo, que começamos no capĂtulo passado.
Ser julgado por regra fere a dignidade humana.
Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein encaram essa e mais quatro objeçÔes â sistemas sem ruĂdo congelam valores, regras claras convidam Ă trapaça, um pouco de incerteza dissuade melhor, decidir por fĂłrmula desmoraliza quem decide â e⊠dĂŁo de ombros para todas.
A defesa do julgamento caso a caso tem raĂzes fundas na polĂtica, no direito, na teologia e na literatura. Os autores lembram que O mercador de Veneza â peça de William Shakespeare que, por acaso, estĂĄ sendo encenada no teatro aqui perto de casa â pode ser lido como um protesto contra as regras livres de ruĂdo, um apelo Ă mercĂȘ (a clemĂȘncia, a piedade) no julgamento que desagua no discurso de PĂłrcia.
Ă qualidade da mercĂȘ nĂŁo ser laboriosa;
Como chuva mansa ela desce do céu
Sobre a terra abaixo. à duplamente abençoada;
Abençoa quem då e abençoa quem recebe




