Os desafios da comunicação em 2026 [É Sobre Isso #23]
De bets a deepfakes: debí tirar más fotos
Se você trabalha com comunicação, provavelmente começou 2026 ouvindo as mesmas três frases de sempre: “como vocês estão usando IA?”, “qual o ROI disso?” e “será que não dá crise?”. A sensação é que entramos num estado de urgência sem saída — tudo é rápido e mensurável e, ao mesmo tempo, parece frágil o suficiente para virar ruído a qualquer momento.
Pois é nesse clima de ressaca pós-carnaval e euforia de ano novo que o É Sobre Isso volta para a segunda temporada. No #23, eu, Gaía Passarelli, Catarina Cicarelli e Gui Pinheiro nos reencontramos no estúdio — um ano depois do primeiro episódio, o que aparentemente já nos coloca entre os sobreviventes do ecossistema de podcasts (contra todas as apostas, segundo o próprio Gui). Antes de olhar pra frente, a gente resolveu olhar pra trás: lembra das previsões que fizemos lá no comecinho de 2025? A gente lembrava mais ou menos também.
A conversa rodou bem. Começamos pela bolha das bets — daquele dinheiro que entrou como caminhão e agora começa a dar sinais de que o motor está falhando. Dos 20 times da série A, 19 tinham patrocínio de casas de apostas; agora já são 14. Lembramos do Free Jazz Festival, que virou Tim Festival, que virou Planeta Terra, que hoje é o C6 Fest — uma lição de que regulamentação muda o jogo, mas o jogo continua. Daí fomos parar na creator economy e na constatação de que as redes sociais viraram, basicamente, “um shopping center com algoritmo”. Teve ex-BBB faturando 100 mil por mês vendendo bugigangas no TikTok Shop e o conceito de brand creator — por que marcas precisam contar suas próprias histórias em vez de depender de influenciador alheio.
Mas o trecho mais quente foi sobre IA e autenticidade. Uma colunista de um grande jornal foi flagrada publicando textos com cara (e formatação) de ChatGPT, e a conversa virou quase uma terapia coletiva sobre ghost writers, o valor do pensamento original e aquela frase que não sai da nossa cabeça: para ter liderança de pensamento, você precisa primeiro ter o pensamento. Falamos do escritor estadunidense Ted Chiang, quando ele citou a professora Anna Rogers e a diferença entre escrever para pensar e escrever por obrigação — porque no fim das contas, a IA resolve o incômodo, mas pode matar o raciocínio junto.
E como se não bastasse, ainda passamos pela Copa do Mundo nos EUA (com direito a Bad Bunny no Super Bowl e geopolítica de boteco), propriedade intelectual e deepfake musical (Luísa Sonza e Dilsinho cantando Taylor Swift, alguém?), a Disney entregando seus personagens para a OpenAI e, claro, o eterno jeitinho brasileiro com direitos autorais — da Carreta Furacão ao pen drive de forró no ponto de ônibus.
No fim, cada um fez sua previsão para 2026 e, no fundo, todas convergiram para o mesmo lugar: a autoestima brasileira em alta e a coragem de não terceirizar o raciocínio para uma máquina. É (sobre) isso, vem ni nóis 2026.


