Motivado em um lugar onde paguei para trabalhar
O que sobra quando tiramos os incentivos financeiros do trabalho?
O sujeito dizendo para você "seguir sua paixão" já é rico. Ele ganhou bilhões com fundição de minério de ferro.
— Scott Galloway
Esta foi uma boa semana. Escrevo isso alguns minutos após tomar um anti-inflamatório pelo quarto dia consecutivo. É uma longa história que interessa mais a ortopedistas do que a leitores de newsletter, ela envolve compensar um joelho direito previamente zoado botando a perna esquerda para trabalhar mais, um tênis ligeiramente apertado no calcanhar e aquele inchaço no pé natural de quando se anda de avião. Deu nisso, arrumei uma tendinite no calcanhar — um lugar que eu nem sabia que dava para ter tendinite. Claro que dá.
Passei a semana mancando e cheguei até a dar uma voltinha de cadeira de rodas no hospital. Não era necessário, foi exagero da minha parte. Mas foi divertido, exceto a parte onde a Anna quase atropelou umas pessoas ao dobrar uma esquina nos infindáveis corredores do hospital enquanto brincava de corrida. Tá bom, essa parte também foi divertida. Eu amo essa mulher.
Esta foi uma semana boa e a grande pergunta foi por quê?. No fim de semana passado fui pela terceira vez ao TEDxBlumenau. Se em 2019 eu palestrei e ano passado eu fui mestre de cerimônias, nesta vez eu pedi para ser da equipe de preparação de elenco (que teve um total de 9 pessoas, organizados em grupos para atender os 10 palestrantes). Ajudar na montagem e treinamento das palestras, levar pessoas a um dia poder dizer oficialmente "obrigarem por virem ao meu ted talk".
Na festa de encerramento, o Humberto, co-fundador do evento (e assinante número 1 do Boa Noite Internet Gold, eu tenho uma planilha do Picpay para provar), virado de sono e completamente exausto virou para mim e disse: "Isso não faz sentido!!! Vocês pagam um avião e passam 3 dias trabalhando de graça pros outros!" O surto veio alguns minutos depois de mais uma pessoa que pela fama e conquistas não precisava pedir para trabalhar de graça fazer exatamente isso.
Por quê?
Acho que a resposta é útil mesmo para quem não tem a menor pretensão de trabalhar ou assistir a um TEDxBlumenau.
É claro que cada pessoa tem seus motivos. Eu mesmo tenho interesse em entender profundamente o processo de preparação dos talks e de alguma maneira usar isso profissionalmente. É um treinamento. Mas se fosse só isso eu não precisava ter ido a Blumenau, pintado um X de madeira na sexta, carregado caixa no domingo e ficado fora do auditório ajudando as pessoas, sem ver as palestras.
Eu vou passar o ano tentando responder esta ótima pergunta, mas aqui vai o que eu já consegui entender.
Trabalho voluntário
A nossa camiseta do TEDxBlumenau tem letras miúdas, que nem um contrato. Abaixo do logo estão as palavras "x = indepentently organized TED event". O formato TEDx foi criado para que qualquer pessoa possa organizar seu evento TED pelo mundo, com o x-zinho indicando "isso aqui não é o tedão não, ok?". É uma baita jogada de crescimento de marca, "abrindo o código-fonte" de uma coisa tão famosa.
Para fazer um evento TEDx é necessário seguir algumas regras. A mais importante é: o evento não deve gerar lucro. É claro que existem despesas, de hospedagem ao aluguel do teatro. Mas nenhuma pessoa que trabalha no evento pode botar dinheiro no bolso — dos organizadores a quem palestra.
Na minha cabeça corporativa isto não deveria fazer diferença. É só um trabalho como outro qualquer, sem contracheque no fim do mês. Fora isso, o processo de trabalho deveria ser o mesmo, certo?
Eu aprendi que não da pior maneira.
Uma coisa que a equipe de preparação sempre deixou claro para os novatos como eu é que apesar de sermos chamados de estagiários, a opinião de ninguém contava menos. Não é para ficar esperando a vez de falar, nem ficar com medo de furar alguma hierarquia. Isto foi repetido no início do sábado, o dia dos ensaios finais e foi com esse clima que entrei no que seria um longo dia.
A primeira pessoa a ensaiar foi um dos meus "mentorados". Foi um bom ensaio, estava tudo lá, mas a pessoa estava apegada demais às palavras exatas do texto, e por isso travou várias vezes durante a fala. Assim que chegamos ao fim eu fui para a beira do palco e comecei a dar meu feedback. Que estava ótimo, que não era pra se preocupar com as palavras exatas — e parabéns por lembrar palavra por palavra que estava no texto, é só que isso não deveria ser um obstáculo para uma palestra que estava ótima. Falei que íamos combinar técnicas de memorização para tirar aquele peso do decoreba, mas muito obrigado.
Viu o problema?
Os outros treinadores deram seus feedbacks, muito na linha "complementando o que o Cris falou…" e seguimos para o próximo ensaio, dessa vez de alguém que não era da minha "turma". A pessoa subiu, deu seu texto, agradeceu e outro treinador colou no palco quase no mesmo lugar que eu. Então ela falou.
"Como você está se sentindo?"
Nessa hora rolou o proverbial eu fiquei sem chão. Na minha cabeça o meu papel ali era fazer daquela a melhor palestra do dia. Melhorar o desempenho daquela pessoa. Armado das melhores intenções do mundo foi isso o que fiz. Ali no palco estava uma pessoa que tinha acabado de passar por um dos momentos mais tensos do ano — fazer sua palestra na frente de outras pessoas pela primeira vez — e a minha preocupação não era com ela, mas sim com a coisa que ela produziu.
Começar pela performance e não pela pessoa pode ser só uma característica minha — talvez a minha linguagem do amor seja "cuzão". Esse meu mentorado é diretor de uma das empresas mais capitalistas do Brasil e quando conversamos mais tarde ele concordou que o que fiz foi o puro suco corporativo de São Paulo. Que quando eu dei o feedback a reação dele não foi de se sentir mal pelo lado pessoal e sim de pensar em como melhorar o desempenho. Minhas suspeitas foram confirmadas dias depois quando outro palestrante fez um post celebrando o evento e literalmente a primeira coisa comentada foi o tanto de gente que lhe perguntava o tempo todo "como você está se sentindo?".
Ao longo do dia de ensaios e principalmente no evento, domingo, eu entendi que meu papel ali não era ajudar aquelas pessoas a "dar um show", ou viralizar no YouTube. Era fazer elas passarem por uma experiência que ia mudar suas vidas. Que mudou tanto a minha que ali estava eu, de volta para mais uma edição — e torcendo para ser chamado de novo ano que vem, desta vez vestindo um sapato menos apertado. Uma experiência que coloca a gente neste modo aqui de falar coisas piegas e escrever textões tentando explicar o que é passar por isso — sem sucesso.
O mundo corporativo me condicionou a medir a qualidade de alguma coisa pelo desempenho e não pelo sentimento da pessoa. E não é porque eu sou um carrasco do sistema que não vê um ser humano ali. É achar que o melhor que eu posso fazer pela pessoa é tornar o desempenho dela melhor. Assim que o primeiro ensaio acabou o que passou na minha cabeça foi "eu sei exatamente o que dizer para ajudar". Só que o que eu estava pensando era como melhorar o produto daquela pessoa. O resultado final. Como ela estava se sentindo não era minha prioridade.
No centro deste sentimento está o fato do TEDx ser uma empreitada sem fins lucrativos. Uma coisa que sempre falo (inclusive no podcast) é que uma das maneiras de ter uma relação menos dolorosa com nossas carreiras é entender que aquilo ali é só uma transação comercial: eu dou meu tempo e conhecimento, você me dá dinheiro. Não "somos uma família". Ali estava eu em um ambiente com zero transação comercial e o que sobrou foram as pessoas e seus sentimentos.
Também fico me pensando o quanto tudo isso que descrevi não é um jeito de ser paulistano. Quando eu fui ao Rio em abril eu era sempre quem puxava o assunto de trabalho. Eu sei que o trabalho é o que nos define aqui — mas será que é só isso que temos?
O "fim lucrativo" nos coloca em um modo onde o objetivo final não é o que estamos vivendo ali, mas sim "entregar alguma coisa". O TEDxBlumenau só existe porque mais de 50 pessoas deixam de passar o fim de semana com as pessoas que gostam para fazer alguma coisa que é mais do que um pix na conta no fim do mês. Uma das pessoas responsáveis pelo evento é funcionária pública e, por isso, não tem como simplesmente pedir para ser liberada na sexta-feira. Então ela resolveu doar sangue para ganhar um atestadinho e comentou que agora estava entendendo por que as pessoas são liberadas do trabalho depois da doação. Ela literalmente deu o sangue para um projeto onde ela não ia receber nada. Não tem metáfora melhor do que essa.
E nem é pela experiência, fama, etc., ela já participou de várias edições, ela podia só ficar em casa ou na plateia. Porque outra piada recorrente do TEDxBlumenau é que as pessoas não conseguem se demitir. Elas anunciam "acabou, ano que vem não volto, é muito puxado" e… 12 meses depois lá estão elas.
Comunidade
Dentro desta caixinha de trabalho voluntário está uma palavra super gasta no mundo corporativo: propósito. Todo mundo está ali para fazer uma coisa que é "maior do que nós". Pela primeira vez eu não estava ali para "ser visto". Eu nem apareço direito nas fotos do evento. Não é sobre isso. Eu estava ali para servir a um propósito? Não. Porque não existe propósito.
Nos meus design sprints do Facebook a gente gastava horas e horas falando sobre o propósito da marca. O que ela tem a contribuir para o mundo, como ela serve às pessoas, blablabla. Eu fui esse cara, eu adorava ajudar as marcas a encontrar aquele propósito que, ao mesmo tempo desperta o interesse do público e também é único dela, ninguém pode falar a mesma coisa. Um dos meus slides de mais sucesso era o que mostrava que o propósito da Nike era "celebrar o atleta que existe em cada um de nós". O propósito da IKEA não é vender móveis baratos, é "Criar um melhor dia a dia para a maioria das pessoas". O da Microsoft é "capacitar cada pessoa e cada organização no planeta a conseguir mais". Propósitos de marca são a maneira de elas se fingirem de humanas. Porque o propósito real delas é lucrar.
Talvez algum slide por aí tenha escrito o propósito do TEDxBlumenau — qualquer coisa me avisa aí, Humberto — mas o verdadeiro está naquela pergunta: como você está se sentindo? Que poderia ser o propósito de qualquer empresa. Meu propósito ali é não desapontar aquelas pessoas, porque elas merecem que eu traga o melhor de mim ali. Ou como todo ano o Humberto fala no "momento motivacional" antes da abertura das portas do teatro: hoje pode ser o melhor domingo da vida de alguém na plateia. Pessoalmente eu decidi expandir esse propósito e adicionar todo mundo da equipe, especialmente quem palestra. Meu propósito é transformar a vida daquelas pessoas que iriam subir no palco minutos depois. Por elas. Pra chegar no fim do domingo, sorrir e falar "agora você me entende, né?".
O propósito são as pessoas, pelas pessoas. É a comunidade que se forma ali naqueles dias. Para fazer parte desta comunidade há um segredo, que é uma das minhas expressões favoritas quando o assunto é trabalho: deixar o ego em casa — e fazer isso não tem nada a ver com ter ou não fins lucrativos. Ninguém da equipe está ali para mostrar como é fodão. Não é uma competição. Não há troféu de "membro mais valioso da equipe". É claro que há feedback, principalmente do público, que responde diferentes pesquisas de satisfação. É só que todo mundo sabe porque está ali: pelos outros.
Linha de chegada
Então aí está o segredo para o sucesso da sua empresa: vire uma ONG, pague as pessoas com experiência e não salário.
Calma, jovem.
No caminho de volta para o aeroporto fiquei compartilhando essas minhocas-na-cabeça com um dos palestrantes, que é diretor de uma ONG, de como eu estava maravilhado com esta nova lente que tinha ganho para ver o mundo, a do trabalho voluntário e como eu andava pensando nas histórias que ele tinha contado no almoço de sábado sobre as diferenças de liderar uma equipe de voluntários. Ele respondeu com cara de exausto (provavelmente de ressaca da festa de encerramento).
"Ah, mas aqui é legal. Quando a gente faz o nosso trabalho o resultado só é visto meses depois e nosso público alvo nem sempre vê, é um pessoal que cobra muito, porque tem que cobrar mesmo".
A minha piada de maior sucesso no fim de semana foi contar para a equipe de produção que meu sócio, Gui, é produtor e gosta de dizer que pra ser produtor tem que ser um pouco maluco. Mas que para ser produtor de eventos, tem que ser um tipo mais maluco de maluco, e que essa ele não topa não. Todas as vezes que contei essa piada o resultado eram risos nervosos, com a vida da pessoa passando diante dos olhos dela que nem um flash. (sim, eu sou o tiozão que repete piada quando ela funciona)
Ainda assim, todo ano, as pessoas voltam para trabalhar no TEDxBlumenau — e em outros TEDx pelo mundo. Pedem mais, fazem fila. Mesmo as que se demitiram no ano anterior. Porque ao contrário da ONG que está lá todo dia fazendo seu trabalho invisível, no TEDxBlumenau o trabalho não só é totalmente visível, ele tem dia e hora para acabar. A linha de chegada é clara. Eu só preciso sobreviver até domingo de noite — inclusive se estiver achando tudo uma grande bosta.
O feedback também é instantâneo, não só no aplauso da plateia ou stories emocionados, mas no que para mim é o novo ponto alto de ser TEDxBlumenau: o abraço de cada palestrante ali, segundos após sair do palco, onde a pessoa está completamente desarmada, os hormônios terminados com ina no pico. E cada feedback do seu jeito, com a personalidade de cada um, desde um "foi muito legal de conhecer" até um choro de "vocês são maravilhosos".
Obrigado por virem ao meu TED talk
Este é o momento onde eu me dou conta que acabei de me tornar aquilo que mais odeio: a pessoa que escreve textão tirando uma Grande Lição Sobre a Vida™ a partir de um evento — um TED ainda por cima. Agora é tarde demais para voltar e escrever uma newsletter com as notícias da semana.
Deve ser só um grande viés, mas eu não paro de lembrar dos 3 segredos da motivação no trabalho, que falamos em um Boa Noite Internet e, é claro, em um TED Talk. (o episódio mais ouvido do ano passado) Quando a empreitada é voluntária estamos tirando a "cenoura e vara" — as recompensas e punições. O que sobra?
Autonomia, onde eu tenho um objetivo claro, mas sou eu que decido como eu vou chegar lá.
Maestria, ao receber feedback imediato e assim sentir que estou melhorando a cada passo.
Propósito. Mesmo sabendo agora que só existe um propósito de verdade.
Como você está se sentindo?
Por hoje é só
Cuidem de si, cuidem dos seus. Até a próxima.
crisdias



