Conheçam o novo chefe
Igual ao antigo chefe
— Pete Townshend
O neoliberalismo quebrou em 2008 e, ainda assim, continua no comando até hoje. Para Mark Fisher, isso aconteceu porque o sistema virou um zumbi — e, como todo fã de filme de terror sabe, matar um zumbi dá mais trabalho do que matar uma pessoa viva.
Lembrando que este não é um capítulo original do livro. “Como matar um zumbi” saiu em julho de 2013 no site openDemocracy, quando as consequências sociais da crise já estavam bem mais claras — mas ainda faltavam três anos para a eleição de Donald Trump. Entrou na edição brasileira como texto extra, traduzido por Victor Marques, e funciona como um resumo da visão do realismo capitalista. Diferente do que vimos no “original” do livro de 2009, que diagnostica muito e receita pouco, aqui Fisher apresenta ideias de solução.
Por que a esquerda tem feito tão pouco progresso, cinco anos após uma grande crise do capitalismo ter desacreditado o neoliberalismo?
Eu também queria saber, meu amigo Mark… Eu também queria saber.
Milton Friedman, o economista favorito do neoliberalismo, dizia que apenas uma crise, real ou assim percebida, produz mudança de verdade — e que, quando ela chega, o que acontece depende das ideias “circulando por aí”. Cabia a ele e aos economistas do seu campo desenvolver alternativas às políticas existentes e mantê-las vivas “até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”. A receita funcionou tão bem que sobreviveu ao próprio desastre. A crise de 2008 foi causada por políticas neoliberais, e, mesmo assim, elas seguiram sendo praticamente as únicas ideias “circulando por aí”. O impossível continuou impossível, o inevitável continuou inevitável.
O neoliberalismo pode não ter tido sucesso em se fazer mais atrativo do que outros sistemas, mas conseguiu se vender como o único modo “realista” de governo
O truque nunca foi convencer o mundo de que o sistema é bom, foi convencer de que é o único possível, um “realismo” que Fisher trata como conquista política, uma realidade modelada nas práticas e premissas do mundo dos negócios. Aquela constante aceitação de que o salário vai estagnar e as condições de vida vão piorar — então melhor aceitar o que temos — já é o realismo capitalista operando.
O realismo capitalista tem sido vendido para nós por gerentes (muitos dos quais se veem como pessoas de esquerda) que nos dizem que os tempos agora são outros. A era da classe trabalhadora organizada acabou; o poder sindical está recuando; as empresas agora dão as cartas, e temos que entrar na linha.




