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📙 Lave as mãos antes de decidir

Resumo comentado de "Desenviesamento e higiene da decisão”, capítulo 19 de "Ruído: Porque tomamos más decisões e como podemos evitá-lo".

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crisdias
jun 20, 2026
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Um eu que continua mudando é um eu que continua vivendo.
— Virginia Woolf

Quando eu era criança, a balança de casa — aquela que você sobe para saber como vai a dieta — era toda à base de molas e engrenagens que se afrouxavam com o tempo e, por isso, tinha atrás um mecanismo para ajustar o ponteiro para que ele sempre começasse do zero. Era um disco dentado de metal que, se não estivesse lá, ia me obrigar a fazer uma conta toda vez que fosse me pesar: se ela começasse marcando 1 kg a mais, eu ia precisar tirar essa diferença de cabeça no final. Nada complicado, mas chato — e talvez por ter acabado de acordar eu poderia acabar esquecendo algum dia.

É a versão Ruído desse disco que o capítulo 19 aborda, um jeito de zerar o ponteiro do julgamento humano para ele errar menos nas medidas. Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein começam pelos dois caminhos que a minha balança já. O nome bonito é desenviesamento ex post — abreviação do latim ex post facto, “depois do fato consumado” —, que desconta o erro depois, como eu fazendo conta de cabeça, e ex ante, que ajusta o instrumento antes, como o tal disco.

O desenviesamento ex post é o que a gente já faz no automático. É como quando empreiteira promete terminar a reforma em três meses, mas você dobra esse número porque sabe que obra sempre atrasa. O Reino Unido transformou essa abordagem em política de Estado. O Tesouro britânico publica o Green Book, um guia que manda os planejadores inflarem por escrito as estimativas de custo e prazo, com base no tamanho histórico do otimismo de cada órgão.

O ex ante previne em vez de corrigir, e tem duas famílias. A primeira mexe no ambiente da escolha — são o que o livro chama de nudges. Em inglês, nudge é aquela cutucada de leve, o empurrão discreto que orienta sem obrigar, e é isso que a técnica faz com uma decisão, inclinar para um lado sem tirar nenhuma opção da mesa. Um bom exemplo é a inscrição automática num plano de aposentadoria como o INSS no Brasil. Quem tem carteira assinada contribui por padrão, o desconto já vem na folha sem precisar fazer nada. Já o autônomo tem que se cadastrar e pagar por conta própria, e é quem mais deixa para depois e acaba ficando de fora.

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