No mundo real, todos sofremos sozinhos — a empatia verdadeira é impossível. Mas se uma obra de ficção permite que nos identifiquemos, pela imaginação, com a dor de um personagem, talvez fique mais fácil conceber que outras pessoas se identifiquem com a nossa. Isso alimenta, isso redime. Ficamos menos sozinhos por dentro.
— David Foster Wallace
Esse é o tipo de coisa que não precisa falar, mas, mesmo assim, eu vou dizer. OK, precisa sim. Depressão é um assunto sério e complexo. Setembro Amarelo vem aí, inclusive. Como é um problema que acontece principalmente dentro da nossa cabeça, é muito difícil de entender. Uma vez ouvi um podcast, acho que foi do Tim Ferriss, em que ele fala da dificuldade de explicar os sentimentos ligados à depressão para quem não tem — e da extrema facilidade quando se está falando com quem também sofre dela. “Eu sei do que você está falando, não precisa explicar.”
Para piorar as coisas, alguns dos ensaios mais importantes e esclarecedores sobre depressão foram escritos por pessoas que, no fim, não suportaram viver assim e tiraram sua vida, como David Foster Wallace e Mark Fisher, nosso autor de Realismo capitalista que estamos acompanhando aqui no Clube de Cultura do Boa Noite Internet. Então estes textos deveriam ser proibidos para não dar ideia a quem sofre com a depressão? Não, é claro que não. O próprio Fisher conta em Não prestar para nada, o capítulo da vez nos nossos resumos comentados, que teve uma grande melhora ao entender o seu problema. Também preciso lembrar sempre que casos como o de Fisher ou o de DFW são a exceção, e há quem diga que seus casos foram influenciados por medicação errada (por culpa dos médicos mas também dos pacientes, Wallace era conhecido por parar de tomar os remédios, desenvolvendo uma resistência que atrapalhava novos tratamentos). Artigos sobre depressão precisam existir para ajudar as pessoas que convivem com quem sofre do problema e também para passar o que provavelmente é a mensagem mais importante desta doença: não é só você, outras pessoas passam por isso, tem saída, mas você não vai sair dessa por conta própria, sem ajuda. Você é importante e há pessoas no mundo que querem te ajudar — por mais absurdo que isso possa parecer. E mais, essa história que passa na sua cabeça não é real, eu juro.
Escrever sobre sua própria depressão é difícil. Faz parte da depressão uma voz “interior” desdenhosa que nos acusa de autoindulgência — “você não está deprimido”, “você está apenas sentindo pena de si mesmo”.
Eu acrescentaria outra voz dizendo “olhe para o mundo, eu não tenho depressão, realmente está tudo uma merda!”.
Por tudo isso, este aqui não é exatamente um resumo comentado como temos feito nos outros capítulos — até porque é um capítulo pequeno, menos de 1.400 palavras, não deu nem 4 páginas aqui no meu e-reader.
O grande argumento de Fisher no capítulo é de que todo mundo diz (com razão) que depressão “é complicado”, porque envolve acontecimentos na infância mas também desequilíbrios químicos. A psicanálise e psicologia tratam do primeiro, a psiquiatria e suas drogas do segundo. Mas, para ele, falta um terceiro, que é a sociedade. Especialmente o capitalismo, que está o tempo todo nos fazendo sentir que não deveríamos estar ali, seja lá qual posição ocupamos na fila do pão. E também dizendo que qualquer fracasso — incluindo ser depressivo — é só culpa nossa. Que basta “ter sangue nos olhos” ou “levantar a poeira” ou “encontrar Jesus” para resolver. Olha o Fulano, ele conseguiu, é só você querer! Será que eu tenho todas as coisas que Fulano tem para conseguir sair da depressão, como dinheiro ou base familiar? Será que ele só arrumou um esquema de lavagem de dinheiro para sair da miséria? Pior ainda, será que Fulano realmente saiu da depressão?
Fisher mesmo abre o capítulo (escrito em 2014, 5 anos depois do lançamento do livro no Reino Unido) com o famoso “tô bem, galera, melhorei”. Só que, em 13 de janeiro de 2017, ele achou melhor tirar a sua vida.
O que me leva à minha depressão. Talvez eu tenha sido deprimido minha vida inteira. No momento não “estou” deprimido, tenho me sentido muito bem de alguns meses para cá, não sei quantos, nem quero saber, mas depressão é o tipo de doença onde nem se diz que está curado porque pode voltar a qualquer momento. Uma das coisas que falei para minha psicóloga quando retomei o tratamento anos atrás foi que meu maior medo é que os dias deprimidos passassem a ser os “normais” e os dias sem depressão trouxessem um sentimento de que aquilo estava errado, de “desacostumado”. Chegou a acontecer, mas se digo que hoje estou bem, é justamente porque os dias ruins — eles ainda existem — chegam com um sentimento de “esse não sou eu”.
Minha “solução” para a depressão, como para todo mundo, teve vários ingredientes: terapia cognitivo-comportamental, psilocibina e também levar algumas porradas da vida e descobrir que, para o total espanto das vozes na minha cabeça, consegui sair do outro lado. Tudo isso gerou uma palavra que tem muito a ver com esse capítulo: aceitação.
Eu costumo dizer que 2024 foi meu “ano da aceitação”. Aceitei como o mundo é e, principalmente, aceitei como eu sou, com minhas limitações e também qualidades. Aceitei que não vou conseguir atender a todas as expectativas — a começar pelas minhas.
E isso é importante neste capítulo de Realismo capitalista porque o título “Não prestar para nada” é uma versão da frase que passou pela minha cabeça nos momentos mais sombrios (adivinha quando? em 2020). No meu caso era “eu sou um fardo, a Anna não aguenta mais viver com um cara assim, depressivo”. A expressão que eu uso para me descrever durante 2020 costuma ser “um saco de batatas”, já falei disso algumas vezes aqui na newsletter. No caso de Fisher, “não prestar para nada” me parece ser mais no sentido de “eu não me encaixo, eu não pertenço, eu não devia estar aqui”, o que também é uma versão de Síndrome do Impostor e, portanto, tem a ver com uma visão de dentro para fora. Talvez todo mundo ache que eu devia estar ali sim, mas dentro da nossa cabeça não faz o menor sentido. Quem seria idiota de dar tanta responsabilidade para um saco de batatas?!?
É daí que sai o grande ponto dele no capítulo, de que isso não é por acaso, é by design. O Sistema precisa que a gente fique o tempo todo achando que, a qualquer momento, vão descobrir que “não presto para nada”, então é melhor eu aceitar minha exploração quieto. Me parece uma coisa parecida demais com a Igreja Católica dizendo que todos nós somos pecadores, o tempo todo, mesmo antes de nascer, então é melhor obedecer o que o padre mandar. No capitalismo, estamos sempre devendo, não só financeiramente.
Esse design de inadequação acontece até com quem não tem depressão, mas para nós o resultado costuma ser muito mais cruel. E Fisher ainda propõe que ele pode empurrar outras pessoas para a depressão porque, como já falei lá no começo, ninguém sabe exatamente o que faz uma pessoa “virar” depressiva. É uma predisposição genética? É um acontecimento canônico na vida? É um acúmulo de situações que, um determinado dia, quebra alguma coisa dentro da gente? Minha filha está se formando em psicologia, deixo para ela responder um dia.
Só que nossa sociedade midiática está o tempo todo nos mostrando Fulanos “felizes”, “realizados”, “bem-sucedidos” nos feeds e nas telas que dizem que não pertencemos a este mundo (porque não nascemos no lugar ou com os genes certos) e, ao mesmo tempo, que essa felicidade, esse “sucesso” é só uma questão de querer, que se eu não cheguei lá a culpa é só minha. Além, é claro, do tabu que é falar de qualquer condição mental-emocional. “Deixa disso, vamos falar de coisa boa! Xô baixo-astral!”. Daí a grande bandeira não só de Mark Fisher mas também de outras pessoas que já passaram aqui no Clube, como Anne Helen Petersen, de que no capitalismo realista estes sofrimentos são encarados como casos isolados, exceções que devem ser tratadas individualmente (de preferência com remédio porque aí ainda faz as ações da farmacêutica subirem).
É nessa hora que vem a culpa. “Você está mal, mas olha toda essa gente muito mais sofrida do que você que ergue a cabeça e segue em frente! Povo marcado, povo feliz!”. A sensação de que não tenho nem mesmo o direito de me sentir mal, porque tem gente com uma vida muito pior que a minha — muito mimado da minha parte ser deprimido sendo homem branco hetero cis, não é mesmo? Mas são justamente os homens o maior grupo (disparado) de vítimas de suicídio, então vou só deixar esse dado aqui e partir para o fim do post.
Nem eu nem Fisher estamos dizendo que o capitalismo é a única causa da depressão. Sim, cada caso é um caso, a depressão de Fisher era bem diferente da minha e da de DFW. Ainda assim, mesmo com a doença sendo “nova” no vocabulário médico, podemos dizer que é uma das grandes doenças do capitalismo, junto com seu irmão, o burnout. Não dá para ignorar que existe esta relação.
Devemos entender a submissão fatalista da população do Reino Unido à austeridade como consequência de uma depressão deliberadamente cultivada. Esta depressão manifesta-se na aceitação de que as coisas vão piorar (para todos, exceto para uma pequena elite), que somos sortudos de ter um emprego (então não devemos esperar que os salários acompanhem a inflação), que não podemos nos dar ao luxo de bancar serviços públicos providos coletivamente. A depressão coletiva é o resultado do projeto da classe dominante de ressubordinação. Há algum tempo, temos cada vez mais nos resignado à ideia de que não somos o tipo de pessoa que pode agir. Esta não é uma falha de vontade individual, da mesma forma que uma pessoa deprimida não pode simplesmente sair da depressão em um “estalar de dedos” ao “arregaçar as mangas”. A reconstrução da consciência de classe é, de fato, uma tarefa formidável, que não será alcançada com soluções prontas e fáceis. Mas, ao contrário do que nossa depressão coletiva nos diz, é uma tarefa que pode ser realizada: inventando novas formas de envolvimento político, revitalizando instituições que se tornaram decadentes, convertendo o descontentamento privatizado em raiva politizada. Tudo isso pode acontecer, e, quando acontecer, quem sabe o que será possível?
Por hoje é só
Sei que não vai ser um post deste tamanho que vai esclarecer tudo sobre depressão, mas espero que comece a ajudar você ou alguém que é importante na sua vida. Não é fácil, mas tem saída.
Cuidem de si, cuidem dos seus, até a próxima.
crisdias



