📙 Como os movimentos acontecem — A Saddleback Church e o boicote aos ônibus de Montgomery
Resumo comentado de "O poder do hábito", capítulo 8.
Ainda não somos livres
Ainda não somos livres
Depois de tanto tempo
Mamãe é escrava da casa grande no bairro de luxo
Papai é escravo da cachaça do boteco da esquina
Meu irmão mais velho é motorista de bacana.
— Cristiane Sobral
O que uma costureira de 42 anos que resolveu não ceder o seu assento em um ônibus tem a ver com aumentar suas chances de conseguir um emprego?
Com esse capítulo, Charles Duhigg abre a terceira e última parte de O poder do hábito. Se a primeira parte analisou como hábitos funcionam no nível individual, e a segunda mostrou como organizações e empresas manipulam esses mesmos mecanismos, agora o foco vai para a relação entre hábitos e sociedade. A pergunta passa a ser: “Como movimentos sociais nascem, crescem e se sustentam?”.
A resposta de Duhigg gira em torno de uma fórmula em três passos, que ele ilustra com as histórias do boicote aos ônibus de Montgomery, Alabama, em 1955, e o crescimento da Saddleback Church, uma megaigreja na Califórnia. As duas falam de amizade e pressão social — forças que em Montgomery funcionavam em redes de vizinhança, igrejas e clubes, e que hoje operam (quando operam) em algoritmos e grupos de WhatsApp.
Mas primeiro, Montgomery.
Uma costureira no ônibus
Nos Estados Unidos dos anos 1950, a segregação racial não era um fenômeno social difuso como o racismo brasileiro — era lei. Em Montgomery, Alabama, as primeiras quatro fileiras de assentos dos ônibus eram reservadas para brancos, enquanto os negros deviam sentar no fundo. Já nas fileiras do meio, se um branco ficasse em pé, os negros eram obrigados a ceder seus lugares. Não era só um “costume”, era código municipal, sob pena de prisão. No Brasil, nunca tivemos esse tipo de segregação formalizada em lei no século 20, mas qualquer pessoa que more por aqui e, bom, tenha olhos sabe que a separação prática continua aí, em renda e acesso.
Em 1º de dezembro de 1955, Rosa Parks, uma costureira de 42 anos, sentou numa dessas fileiras do meio. Quando o motorista mandou que ela levantasse para dar lugar a um passageiro branco, ela se negou. O motorista ameaçou chamar a polícia e ela simplesmente respondeu: “Pode fazer isso”.
“Por que vocês nos tratam assim?”, ela disse.
“Não sei”, respondeu o policial. “Mas a lei é a lei e você está presa.”
Mas não foi como se a recusa de Parks tivesse, do nada, despertado a consciência de uma cidade inteira. Ela não foi a primeira a desafiar essas leis. Desde 1946, outras pessoas negras haviam sido presas em Montgomery pelo mesmo motivo — entre elas, Claudette Colvin e Mary Louise Smith, meses antes de Parks. Em 1950, um policial atirou e matou Hilliard Brooks, de 22 anos, um ex-combatente negro da Segunda Guerra Mundial, depois que ele se recusou a ir para o fundo do ônibus. Nenhum desses casos gerou boicotes ou protestos. “Não havia muitos ativistas de verdade em Montgomery na época”, disse o historiador Taylor Branch, que ganhou o Prêmio Pulitzer com uma trilogia com quase 3.000 páginas sobre o movimento pelos direitos civis nos EUA. “O ativismo era algo que acontecia em tribunais. Não era algo que pessoas comuns fizessem.”
Então, o que havia de diferente em Rosa Parks? Spoiler: Não foi heroísmo individual.




