Brigas são algo extremamente vulgar, pois todos na boa sociedade têm as mesmas opiniões.
— Oscar Wilde
Existe “briga positiva”? 🤔
Nos três capítulos anteriores, Adam Grant nos convenceu de que precisamos duvidar mais de nós mesmos — reconhecer a síndrome do impostor como aliada, desapegar de crenças que viraram identidade, até sentir alegria ao descobrir que estávamos errados. Tudo muito bonito enquanto o repensamento é um exercício solitário, uma conversa consigo mesmo. Mas agora Grant quer que a gente brigue. Quer treta, babado e confusão, que a gente procure conflito de propósito e aprenda a gostar dele.
Este é o último capítulo da primeira parte do livro, que tratou de como repensar nossas próprias opiniões. A partir da próxima semana, entraremos na parte dois: como convencer os outros a fazer o mesmo.
Irmãos à obra
Os dois filhos mais novos de um bispo do interior dos Estados Unidos faziam tudo juntos. Lançaram um jornal, montaram uma oficina de bicicletas e, após anos debruçados sobre um problema que ninguém tinha conseguido resolver, construíram um “avião” — que nem decolava.
Grant abre o capítulo com Wilbur e Orville Wright — que nunca serão Santos Dumont — e sempre eram vistos brigando ferozmente. Discutiam por horas, dias, meses. O mecânico dos irmãos disse, admirado: “Acho que eles não se irritam de verdade, só ficam muito empolgados.”
Os Wright não são caso único. Tina Fey e Amy Poehler se conheceram em uma aula de improvisação,1 Lennon e McCartney se encontraram na escola, Ben e Jerry se tornaram amigos em uma aula de educação física no sétimo ano. Tom Jobim e Vinícius de Moraes eram tão diferentes quanto complementares — o perfeccionista obsessivo e o boêmio sentimental. Caetano e Gil passaram a vida se provocando e se completando.
Parece que, para criar junto, é preciso estar em sincronia. Mas a verdade, como todas as verdades, é mais complicada.
Gertrudes ou Quasar?
A psicóloga australiana Karen (Etty) Jehn é uma das principais especialistas mundiais em conflito e identificou dois tipos bem diferentes de treta. Um conflito pessoal é a briga com hostilidade, do tipo “vou falar devagar para ver se assim você me entende, seu idiota”. Mas há também o conflito funcional.
Temos um conflito funcional quando discutimos sobre qual candidato contratar, em qual restaurante jantar ou se devemos batizar nosso filho de Gertrudes ou Quasar. A questão é que os dois tipos de conflito têm consequências diferentes.




