đ A planilha realmente prevĂȘ melhor que eu e vocĂȘ
Resumo comentado de âJulgamentos e modelosâ, capĂtulo 9 de âRuĂdo: Porque tomamos mĂĄs decisĂ”es e como podemos evitĂĄ-loâ.
Então ele refletiu que a realidade geralmente não costuma coincidir com as previsÔes.
â Jorge Luis Borges
Começa aqui a Parte III de RuĂdo, onde conversaremos sobre julgamento preditivo: o palpite que alguĂ©m dĂĄ hoje sobre algo que sĂł vai se confirmar (ou nĂŁo) depois. As partes anteriores mediram ruĂdo olhando para julgamentos avaliativos do tipo dar uma sentença justa, ou qual seria a indenização adequada. Agora o terreno Ă© o das previsĂ”es. Quem vai ser bom funcionĂĄrio, quem vai reincidir no crime, quem vai responder bem ao tratamento. A vantagem Ă© que aqui o tempo julga. Basta esperar alguns anos, comparar a previsĂŁo com o que de fato aconteceu, e o resultado sai. E⊠o especialista costuma sair mal quando ele chega.
Imagine receber a ficha de duas candidatas a cargo executivo, Monica e Nathalie, com notas de 1 a 10 em liderança, comunicação, habilidades interpessoais, técnicas e motivação.
VocĂȘ bate o olho na tabela, calcula uma mĂ©dia mental e crava Nathalie como a mais forte, com vantagem de um ou dois pontos. O 10 redondo dela em comunicação chama a atenção, e as notas altas em liderança e habilidades interpessoais seguram o caso, mesmo com motivação e parte tĂ©cnica mais fracas do que as de Monica. Pronto, acabamos de fazer aquilo que o livro chama de julgamento clĂnico, o nome chique para âconsultei minha intuiçãoâ â ou DataCuâą â, que vem sendo chamado nos capĂtulos anteriores apenas de julgamento.
Este exemplo saiu de um estudo real com 847 candidatos a cargo executivo de uma firma internacional de consultoria. Psicólogos com doutorado avaliaram a base inteira e, anos depois, alguém comparou suas previsÔes com o desempenho real dos contratados. Quando o psicólogo cravava A como melhor que B, a chance de A acabar com avaliação melhor que B era de 55%. Pouco acima de cara ou coroa.
A mesma base, jogada numa fĂłrmula estatĂstica trivial de mĂ©dia ponderada â regressĂŁo mĂșltipla, mas dĂĄ para pensar como âatribua peso fixo a cada nota e faça a somaâ â, chegou a 60%. Algo como peso 3 para liderança, 2 para motivação, 1 para comunicação, e por aĂ vai (e atĂ© pesos negativos para coisas que jogam contra, como multas de trĂąnsito nĂŁo pagas). Nada espetacular. E, ainda assim, com melhores resultados do que o doutor.





